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Nostalgia da Feira Popular

Nostalgia da Feira Popular

Os meus amigos já sabem que sou uma leitora inveterada e compulsiva de jornais. Leio quase tudo, desço ao pormenor, não deixo passar a pequena notícia, procuro avidamente os meus colunistas preferidos, gosto de apreciar uma boa primeira página, que deve ser um bom cartaz, leio as já famosas tiras de banda desenhada, gosto até de ler as cartas ao director.

E foi uma destas cartas de um leitor de Lisboa que me levou a escrever esta crónica. "Nostalgia da Feira" era o título da carta, não sei se do próprio leitor se do jornal. A verdade é que no instante mesmo em que li a carta também eu senti a nostalgia da Feira. Da Feira Popular de Lisboa para ser mais precisa.

Lembro-me muito bem da antiga Feira ainda no Parque de Palhavã, onde hoje se encontra a Fundação Calouste Gulbenkian, e lembro-me também muito bem da inauguração da Feira em 1961, quando passou para Entrecampos.

Antes porém talvez valha a pena lembrar que a Feira Popular foi uma ideia de um homem fascinante chamado Leitão de Barros, que a fez passar ao director de "O Século", João Pereira da Rosa, como forma de ajuda financeira à Colónia Balnear Infantil do Jornal. A Colónia, nascida em 1927, destinava-se a proporcionar melhores férias e tempos livres a crianças desfavorecidas dos bairros pobres da cidade e as receitas da Feira foram durante anos a ajuda preciosa para a concretização de tão belo projecto.

Em Entrecampos já não havia o famoso "Lago dos Namorados" que, em Palhavã, serviu de ninho a muitos parzinhos apaixonados, nem funcionou o não menos famoso "Rotor", que tinha como principal atracção levantar as saias às meninas que se atreviam a entrar no também chamado "Cyclotron".

De resto havia tudo os carrinhos de choque, o comboio fantasma, os astrólogos, os carrocéis, a montanha-russa, a grande roda, o poço da morte e, claro, os comeres e beberes da praxe, onde a sardinha assada era rainha e as farturas o toque final ajustado.

Pois tudo isso acabou. Ainda por lá restam uns restaurantes mas nada já tem o apelo de outros tempos.

Santana Lopes, sempre ele, acabou com tudo prometendo mundos e fundos mas a verdade é que os alfacinhas (e os não alfacinhas, claro) deixaram de ter a sua Feira Popular onde, por pouco dinheiro, se divertiam e onde as crianças podiam dar largas à sua imaginação.

A Feira Popular era, no final do ano escolar, o grande ponto de encontro de milhares de estudantes que ali iam festejar mais um ano passado. Os meus filhos por lá passaram, muitas vezes, e ainda hoje recordo com saudade e com a nostalgia, de que falava o leitor da tal carta, os muitos fins de tarde a vê-los no carrrocel dos póneis ou agarrados ao algodão doce.

Dizia-se, e não era mentira, que o recinto precisava de uma grande limpeza e de obras que o tornassem mais apetecível. Concordo. Mas acabar com tudo sem oferecer nada em troca não foi com certeza a medida ideal. Nostalgia da Feira? Sim. Para sempre.

O primeiro passeio de BTT organizado este ano pela Câmara de Sintra realiza-se no próximo domingo, entre Sintra e Alpoletim.

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