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Quando um jornal se torna o protagonista da luta política

Quando um jornal se torna o protagonista da luta política

Passa das cinco da manhã de 20 de Maio de 1975 e uma chuva miudinha cai dos céus de Lisboa. Quase 200 trabalhadores do vespertino "República" são evacuados, por forças militares, das instalações do jornal, à Rua da Misericórdia, imediatamente seladas. Uns são delirantemente ovacionados, mas a maioria é transportada em "Berliets" do Exército e apupada pelo que resta da concentração promovida pelo PS, desde a tarde da véspera. Termina, assim, o mais "quente" episódio do que ficou conhecido como o "caso República" - um longo conflito entre adeptos e opositores da Direcção, até aí liderada pelo socialista Raul Rego, peça maior do confronto mais vasto entre a legalidade institucional e a legalidade revolucionária que então se vive no país.

Dia 19 de Maio, segunda-feira. Pela manhãzinha, a Comissão Coordenadora de Trabalhadores (CCT) do "República", onde os operários gráficos estão em maioria, pede uma reunião aos responsáveis editoriais do jornal. Raul Rego é o director, tendo Vítor Direito, que muitos anos mais tarde liderará o "Correio da Manhã", como adjunto. Outra destacada figura do PS, João Gomes, chefia a Redacção e Rui Camacho é o "número dois".

Os quatro colocam como única condição para a realização do encontro a presença do administrador Gustavo Soromenho, outra personalidade grada do partido da rosa. Uma vez aceite, o grupo é confrontado com a exigência de demissão da Direcção e da chefia do vespertino, fundado em 15 de Janeiro de 1911, por António José de Almeida. Exigência recusada em nome do artigo da recém-aprovada Lei de Imprensa, que comete aos directores, uma vez obtido voto favorável do Conselho de Redacção, a competência exclusiva para decidir a orientação editorial.

De todo o modo, Rego convoca os 22 jornalistas da casa para darem a sua opinião. Apenas dois não corroboram a sua ideia Carlos Albino Guerreiro, actual redactor do "Diário de Notícias", e Edmundo Perdiz. Ambos são conotados com a chamada Extrema-Esquerda.

Serve de pouco a iniciativa da Direcção. Pouco depois das 11 e meia, a CCT distribui um comunicado, onde informa que, "baseando-se nos plenos poderes que lhe foram conferidos" numa reunião geral de trabalhadores, realizada a 2 de Maio, suspende do exercício de funções a Direcção e a chefia, nomeando director-interino "o camarada Álvaro Belo Marques", até então director comercial da Editorial "República". O texto é suportado pela assinatura de 93 funcionários.

Ao princípio da tarde, como de costume, o jornal sai para a rua, com o nome de Belo Marques no cabeçalho e um editorial onde se acusam os demitidos, entre outras malfeitorias, de estar a partidarizar o jornal em favor do PS.

Uma edição que os socialistas consideram "pirata". O ex-chefe de Redacção João Gomes declara mesmo ao "Jornal Novo", poucos dias depois "Não é um qualquer Belo Marques que possui autoridade moral e política para substutuir uma pessoa com a autoridade moral e política de Raul Rego".

Em todo o caso, a maioria da Redacção também tem direito a dizer de sua justiça, nas páginas do jornal. Mas, quando este chega às bancas, já o PS está a convocar uma concentração para a porta do "República", às 18 horas.

"Não se pode ignorar a vontade popular!"; "Este jornal não é do Cunhal!" e "República é do povo, não é de Moscovo" são algumas das palavras de ordem mais entoadas na manifestação, em que participam quase todos os dirigentes do PS, com Mário Soares à cabeça.

Pelas sete e meia da tarde - com a maioria dos trabalhadores a sentir-se sitiada e a Redacção a afirmar-se sequestrada -, chegam ao local as primeiras forças militares. Já noite alta, é a vez do ministro da Comunicação Social, Correia Jesuíno, tido por próximo do PCP, e do director-geral de informação, Rui Montez. Conversações e mais conversações. Ambos os lados se mantêm, no entanto, irredutíveis.

Os trabalhadores são evacuados e as instalações seladas, como a Administração do jornal exigia, desde que perdera o controlo dos acontecimentos. Os últimos "resistentes" da manifestação convocada pelo PS abandonam a Rua da Misericórdia. A 20 de Maio de 75, dia em que completaria 64 anos de vida, o "República" já não sai para a rua.

Deputado do PS

Fundador do PS, começa a colaborar no "República" em 1973, como responsável pelo suplemento político "Encontro", que se publica às quartas-feiras. No início do Verão do ano seguinte, ingressa nos quadros, onde se mantém até 19 de Maio de 75, sempre ao lado da direcção de Raul Rego.

Olha para o conflito de há 30 anos como algo de "inimaginável" hoje, em que "o que se discute é a relação dos conselhos de Redacção com os directores dos jornais e não a possibilidade de estes serem nomeados pelo conjunto dos trabalhadores". Ainda assim, classifica o processo de "interessante" e continua a considerar que o PS "agiu bem" "Provocou uma clarificação da situação política, que era de revolução permanente, acelerando as condições para o 25 de Novembro". Já tem mais dúvidas sobre o papel desempenhado pelo PCP: "Não tenho a certeza sobre se foi o motor do caso ou um mero instigador da acção da Extrema-Esquerda. Admito, aliás, que houvesse divisões internas acerca de qual deveria ser a sua estratégia".

De resto, o secretário de Estado da Comunicação Social no tempo de Guterres lembra-se de ter sido no "República" que aprendeu a escrever à máquina e a repercussão internacional do conflito. Ah! E recorda-se de que Mário Soares colaborava no jornal, antes do 25 de Abril e a

partir de Paris, sob o pseudónimo de... "Clain d'Estaing".

Jornalista

Inicia a sua colaboração no "República" em finais de 72, entrando para a secção de Desporto em meados do ano seguinte. O 25 de Abril de 74 apanha-o na Polícia Militar, de onde escreve uma carta a Otelo Saraiva de Carvalho, considerando que o seu "contributo para a revolução" será maior no jornal. Após o 19 de Maio de 75, já militante da UDP, coordenará a nova comissão de trabalhadores da empresa.

Ainda hoje sustenta que o que passou foi "um golpe objectivo do PS, para arranjar um pretexto visível para a sua luta contra o PCP. Como percebeu, desde cedo, que ia perder, achou que era melhor sair, criando assim um facto político. Lá que foi uma jogada de mestre, do ponto de vista da táctica política, isso foi. Basta ver a repercussão internacional do caso".

E o papel do PCP? "O PCP não teve nada a ver com aquilo. Se tivesse, provavelmente o jornal tinha durado mais tempo. Se alguém ali tinha influência era a UDP e outras correntes de Extrema-Esquerda. Mas não havia intenção de tomar o Poder lá dentro. A intransigência do PS é que foi total", insiste o actual editor da revista "Epicur", que lamenta ter-se desperdiçado, assim, "a possibilidade de fazer um jornal moderno, de Esquerda". E que se lembra bem da defesa armada das instalações pelas Brigadas Revolucionárias, ou da visita de personalidades ilustres, como Daniel Cohn-Bendit, figura de proa do Maio de 68 francês.

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