O Jogo ao Vivo

grande_plano

"Palavra-chave é cooperação"

"Palavra-chave é cooperação"

Três dias antes do Natal, Cavaco Silva concedeu uma entrevista ao JN, em sua casa, onde ficará a residir no caso de vir a ser eleito presidente da República. Admite que o chefe de Estado pode propor determinada actuação legislativa ao Governo, mas garante que não será uma arma de arremesso entre a Oposição e a Maioria. Elege como primeira tarefa, se chegar a Belém, uma longa conversa com o primeiro-ministro.

[Jornal de Notícias] Quando é que realmente decidiu avançar com a candidatura?

[Cavaco Silva] Em Agosto, depois de uma conversa com a família, porque entendo que uma decisão com estas consequências não pode deixar de ser tomada com a família. É preciso, num combate destes, termos a certeza que a família está do nosso lado.

Mas quando falou com a família, já tinha uma predisposição forte para avançar?

Embora tendo dito, em Maio de 2004, que só em circunstâncias extraordinárias me candidataria, e começasse a ter a percepção de que de facto o país estava em situação que me parecia extremamente complicada, a decisão, em si, foi mesmo difícil de tomar.

Quer dizer que manteve por muito tempo a decisão em aberto?

PUB

A decisão foi difícil de tomar. Tinha a vida muito organizada. E gostava do que estava a fazer.

Quando não quis participar no cartaz do PSD, nas legislativas, estava já a demarcar-se do partido para se candidatar?

Não tem nenhuma relação. Quando me afastei da liderança do PSD, em 1995, tomei a decisão de manter-me totalmente à margem da estratégia partidária e não é possível encontrar uma declaração minha em que dê opiniões sobre estratégia partidária. Em relação ao cartaz, ninguém falou comigo. Alguém que visse aquele cartaz diria, afinal ele está na vida política activa. Não tinha nada contra a direcção do partido nem tinha nada a ver com a simpatia que me merece, ou não, a direcção do PSD.

Mas teve intervenções que quase directamente interferiram na liderança de Santana Lopes.

Não tive. O que eu fiz, ao longo do tempo, foi escrever um conjunto de artigos motivados pela minha visão da situação do país e de preocupação quanto a orientações que estavam a ser seguidas. Houve o famoso artigo dos políticos e a lei de Gresham, sobre o qual é um completo absurdo imaginar que pode ter influenciado a decisão do presidente da República. Não fazia a mínima ideia que ele queria tomar essa decisão. Era uma preocupação minha quanto à degradação da classe política.

Agora que regressou...

Sim! Foi um mergulho súbito para o que, confesso, não estava lá muito bem preparado. Foi uma passagem muito brusca da vida tranquila para... de um dia para o outro, escutar todos os dias quatro pessoas a utilizarem uns termos que os meus netos comentam: "avô, aquele senhor disse que tu eras um macaco sábio"... (risos) Foi um mergulho sem preparação.

Isso não envolve também um grande risco para si? Ganha ou acaba-se a sua intervenção política ou pública?

Seja qual for o resultado, nunca acabará a minha intervenção cívica. O risco maior era eu ter ficado mal comigo próprio se não tivesse avançado. E olhe que se for eleito não vou ter a vida tranquila e boa que tinha.

E se não for?

Se perder, isso não vai transformar a minha vida porque, tal como regressei à Universidade, com toda a normalidade, no dia seguinte àquele em que sai das funções de primeiro-ministro, se perder, no dia seguinte regresso à minha vida.

Está convencido que vai ganhar na primeira volta?

Não sei. Não sou daqueles que antecipam resultados.

Se for eleito, vai viver para o Palácio de Belém?

Vivo há mais de 30 anos aqui nesta casa, estou muito habituado a ela. Se ganhar as eleições, não vou viver para o palácio de Belém, continuarei aqui.

Mas quando foi primeiro-ministro ocupou o Palácio de S. Bento.

É verdade, mas porque fui obrigado. Vivia aqui ao meu lado um líder da UNITA e entendeu-se que eu não devia ficar aqui. Então, mudei-me para São Bento.

Vai dar algum sinal de contenção das despesas em Belém?

Com certeza, não serei um presidente gastador. Serei muito contido dentro dos limites orçamentais que sejam fixados para a Presidência. Farei só as viagens que considerar indispensáveis, desejo cumprir a promessa de fazer visitas especificamente dirigidas às comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo.

Então, vai viajar pelo Mundo inteiro...

Não. Eu disse que iria fazer uma visita anual. O que pretendo é criar uma assessoria política só para acompanhar os problemas dos portugueses que residem no estrangeiro, que são quatro milhões e têm muitas potencialidades para a diplomacia económica e para investir no país.

Já pensou na primeira tarefa que quererá ter se for eleito?

A primeira tarefa que gostaria de realizar era uma conversa longa com o primeiro-ministro.

A primeira cerimónia a que o próximo presidente vai presidir será a comemoração do 25 de Abril. O que diria para lembrar essa data?

Ainda não pensei nisso. No passado, assisti a discussões e até a desejos de se modificar a cerimónia do 25 de Abril. Mas, neste momento, estou ainda a pensar na campanha, no contacto com os portugueses...

E como será esse contacto com os portugueses, se for presidente?

Não ficarei fechado no Palácio de Belém. Mas, numa primeira fase, o contacto deve ser feito muito para mobilizar os cidadãos para realizar produção. Conto de modo particular com o Norte do país. Acho que o Norte deve merecer uma atenção especial da parte dos líderes políticos, na medida que tem uma tradição importante de exportação .

Que pode o presidente da República fazer nessa área?

Deus queira que não tenhamos um presidente da República que tenha a ideia de que não pode fazer nada. O presidente deve pensar que pode fazer.

Considera que o factor psicológico é a grande arma do presidente?

Sim. Os factores psicológicos são muito importantes na evolução de um país porque determinam as expectativas. A credibilidade e a confiança são factores psicológicos importantes para gerir as expectativas em face do futuro. E o presidente da República tem muita influência pela imagem que projecta. Ele tem de ser um exemplo de seriedade, de honestidade, de rigor, de defesa do interesse nacional, de intransigência em relação à corrupção e ao laxismo na despesa. Tem de ser uma voz de alerta em relação, por exemplo, ao desordenamento do território, um estímulo à produção.

E a voz chega?

Não pretendo substituir-me ao Governo mas, além das competências escritas, é bom não esquecer que há a legitimidade que o presidente tem pelo facto de ser eleito directamente pelo povo.

O actual presidente tem vindo a alertar para quase todos os domínios da actividade nacional, desde a Saúde à Justiça, e dificilmente as coisas mudam. O que pode fazer diferente?

É verdade. Às vezes, a equipa não é má, mas precisa de um novo treinador. Quanto ao actual presidente, considero-o uma pessoa muito séria e empenhada em resolver os problemas nacionais, mas está no fim do mandato e a chegada de um novo presidente pode ter o efeito, quer se queira quer não, da chegada de um treinador novo. E cada presidente tem as suas qualidades. As qualidades que me reconhecem podem ser muito úteis nesta fase da vida nacional que é diferente das fases em que ocorreram todas as eleições presidenciais anteriores.

E qual é a diferença?

Esta é a primeira vez que ocorre uma eleição presidencial em que todos os dirigentes políticos, a começar pelo próprio presidente, e os candidatos utilizam a expressão "crise grave".

E pode resolver a crise?

Ao presidente cabe garantir a estabilidade e o normal funcionamento das instituições. Quando, por exemplo, órgãos de soberania - o Parlamento, o Governo, os tribunais - mostram uma dificuldade de entendimento, o presidente tem de intervir.

Para fazer o quê?

Para chamar todas essas partes. Estamos a chegar a uma situação em que o presidente tem de fazer tudo para conseguir um entendimento alargado entre Governo, partidos da Oposição, magistratura judicial, Procuradoria-Geral da República e advogados quanto às prioridades na Justiça. Acertar nas prioridades não me parece difícil. Acertar na estratégia para alcançar essas prioridades já requer mais esforço. Mas acho que o presidente não pode ficar alheio. Ninguém ganha com o desprestígio do sistema de Justiça. Se for eleito, tenho de fazer tudo para restituir credibilidade ao sistema. Mas é óbvio que sozinho não posso fazer muito, mas ninguém pense que não vou empurrar.

O desemprego subiu e a riqueza nacional desceu. Que diria se agora fosse presidente perante esta situação concreta?

Não é assim, o presidente não fala do momento. Tenho dito que o problema do desemprego só pode começar a ser resolvido quando a economia começar a crescer cerca de 2%, não tenhamos ilusões. E esse é um dos casos em que se justifica uma cooperação estratégica entre o presidente, o Governo e o Parlamento para consolidar como grande prioridade o reforço da competitividade nacional.

Essa ideia já existe.

Mas o presidente pode conseguir que os portugueses se apercebam e interiorizem que esta é a prioridade do momento. Pode tentar fazer com que esta ideia seja absorvida pelos partidos da Oposição e que os parceiros sociais a aceitem. Depois, valia a pena estimular a realização de um acordo de médio e longo prazos entre Governo, empresários, sindicatos e partidos voltado totalmente para a competitividade e a criação de emprego. O presidente, se for respeitado e escutado por empresários, pode exercer "pressão", para que se aposte na inovação. Como disse, há dias, um constitucionalista, um dos poderes do presidente mais importantes é o poder da palavra. E isso é tanto mais forte quanto mais ele for credível e respeitado.

Vai usar até à exaustão o poder da palavra?

Ai isso vou. Vou falar. Uma palavra-chave para mim é cooperação. Há aí candidatos que estão nervosos por eu dizer que vou cooperar com o Governo, mas até digo mais, alargarei esses estímulos e contactos à sociedade. Por exemplo, preocupam-me muito os nossos têxteis e calçado. Tenho dito, e continuarei a dizer que é uma ilusão pensar em substituir, de um momento para o outro, os têxteis por indústrias tecnologicamente avançadas. Este sector tem de ser apoiado na direcção da qualidade, na marca.

Problema grave é o da deslocalização de empresas estrangeiras. Nessa matéria, o presidente pode ajudar?

Há uma coisa que pode ser feita em Portugal, que eu sei que já foi feita noutros países. Podia existir um responsável do Governo que fizesse a lista de todas as empresas estrangeiras em Portugal e, de vez em quando, fosse falar com cada uma delas para tentar indagar sobre problemas com que se deparam e para antecipar algum desejo dessas empresas se irem embora, para assim o Governo tentar ajudá-las a inverter essas motivações. Tem de ser um acompanhamento com algum pormenor que deveria ser feito por um secretário de Estado especialmente dedicado a essa tarefa.

Vai propor isso ao Governo?

Já o estou a propor aqui.

Onde é que isso foi feito?

Na Áustria, em relação a empresas que queriam mudar para outras paragens. Mas também noutros países, tenho a lista completa. Por outro lado, o investimento estrangeiro em Portugal está muito bloqueado. O presidente não pode fazer alguma coisa para ajudar a desbloquear? Se ajudar a aumentar o clima de confiança já faz alguma coisa. Esta é a fase em que Portugal devia concentrar o investimento estrangeiro nas chamadas médias empresas e internacionalizar.

Qual deve ser a prioridade do presidente em termos de representação externa?

A imagem de Portugal no estrangeiro não é muito boa. O presidente é uma voz e essa é uma área em que deve existir uma grande concertação com o primeiro-ministro, porque Portugal tem de falar a uma só voz. As prioridades de Portugal no estrangeiro têm de ser projectadas de forma clara e num só sentido.

O presidente deve participar nos conselhos de ministros, já que é possível, a pedido do primeiro-ministro?

Não, não sou muito favorável a isso, excepto em momentos de crise em que o presidente queira manifestar solidariedade muito forte para vencer uma situação. Mas o presidente não deve participar no processo político de decisão próprio do Governo. E também é o primeiro-ministro quem deve participar nos conselhos europeus.

Se for eleito, não tenciona interferir em áreas europeias?

Tenciono acompanhar os assuntos europeus. O presidente tem uma opinião a dar e nas suas conversas com outros chefes de Estado e de Governo para defender também os interesses nacionais, mas concertado com o Executivo. Aí não pode haver diferença entre o Governo e o presidente. Têm de acertar.

Admite sugerir legislação ao primeiro-ministro?

Nas conversações com o primeiro-ministro, se entender que existe um domínio que carece de uma lei ou que tem legislação em excesso posso trocar impressões com ele. Ele pode convencer-me do contrário. Gosto do diálogo franco e aberto, sem preconceitos nenhuns. Por exemplo, fala-se em alterar a forma de financiamento das autarquias locais, eu considero um dever escutar e falar com o primeiro-ministro. O presidente pode sugerir intervenção legislativa nalgumas áreas.

Mário Soares disse, no debate televisivo, que foi o garante da estabilidade na última fase do seu mandato à frente Governo. Que se passou?

Surpreendeu-me essa insistência de Mário Soares. Mas pode ler-se um artigo que Jorge Lacão escreveu sobre o congresso "Portugal, que futuro?", onde diz que foi das iniciativas mais agitadoras para o PS. Penso que o dr. Soares se esqueceu das declarações do dr. Vítor Constâncio quando este saiu da liderança do PS. Mas esqueceu-se também da tese de mestrado de Estrela Serrano (antiga assessora de Soares), onde está escrito, de forma lapidar, como eram manipulados os jornalistas. Penso que foram apenas esquecimentos, mas estou a dizer isto porque eu sou pela estabilidade política, sempre fui. Até disse aos portugueses que, se não quiserem dar a maioria ao meu partido, a dessem a outro.

Disse, por outro lado, que um presidente não pode dar um cheque em branco ao Governo. Esclareça.

Quero com isso lembrar que é o presidente quem promulga as leis. E está atento a se ela pode, ou não, ferir orientações fundamentais relacionadas com o interesse nacional. Mas não utilizarei os meus poderes como arma de arremesso.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG