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palhaços que ajudam a curar

palhaços que ajudam a curar

Sentado na cama, Hugo arrumava, calmamente, as peças de legos com que estivera a brincar. Sozinho no quarto, decidira, momentos antes, não dizer palavra e o ar carrancudo, que fazia questão de mostrar, afastava tentativas de conversa. Pouco tempo depois, Hugo mantinha-se calado. A expressão do rosto, porém, era diferente. Havia um sorriso. Grande, franco, grato. O trabalho dos "doutores palhaços" estava, mais uma vez, conseguido. A boa disposição também ajuda a curar. Porque faz esquecer, por minutos, o sofrimento e alivia alma.

Há um ano que as terças-feiras no serviço de Pediatria do Instituto de Oncologia do Porto (IPO) causam alguma agitação. É o dia da dupla de profissionais da "Operação Nariz Vermelho" levar alegria ao 12º andar, tornar diferente o ambiente nas 27 enfermarias e procurar que a palavra "esperança" venha à mente. Com força. Como força.

Para seres humanos

"Os hospitais são lugares onde há medo. Os pacientes têm medo do diagnóstico, os enfermeiros têm medo de falhar e até os médicos têm medo de não serem Deus. Apesar disso, os hospitais não precisam de humanização. São feitos por seres humanos para seres humanos. A "Operação Nariz Vermelho" existe para lembrar isso e para levar um pouco do ridículo que valorizamos", disse, ontem, Beatriz Quintella, mulher-palhaço, parte do trio fundador de uma ideia abraçada por oito hospitais do país.

No Porto, só o IPO abriu as portas. Um ano depois, o presidente do Conselho de Administração, Artur Osório, mostrou que "valeu a pena apostar". "Correu muito bem esta operação", disse, contagiado pela alegria dos palhaços presentes. Depois, mais sério, considerou que a qualidade do serviço de Pedriatia do IPO passa por sorrisos, que "trazem, sempre, esperança e optimismo, e valem mais do que medicamentos".

Beatriz Quintella diz, no entanto, que para que "este surto de sorrisos seja possível" é preciso grandes doses de dedicação e algumas receitas (financeiras) para que "o desafio cresça, formando-se mais palhaços e aumentando o número de visitas a crianças e a instituições".

O entusiasmo com que o projecto foi recebido no Porto leva a mulher-palhaço (que, lado a lado com Bárbara Ramos Dias e Mark Mekelburg lançou a ideia) a desejar alargar a participação no IPO. "Por ora, é um pouco complicado. Mas estamos a encarar essa hipótese com seriedade", sublinhou.

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Também a possibilidade de alternar os dias das visitas está a ser equacionada. É que há crianças a reclamar "um abraço" aos "palhaços doutores".

Aulas no hospital

São 17 as crianças e jovens actualmente internados na Peditaria do IPO do Porto, nas alas de tumores líquidos e sólidos. O serviço recebe pacientes com idades que vão até aos 18 anos, o que implica que, por via da doença, as aulas tenham de ser dadas dentro do hospital, por duas professoras, Cristina Figueira e Filomena Cardoso.

"Há regras, mas ninguém é obrigado a estudar. Procura-se a colaboração das escolas que avaliam trabalhos e dão sugestões. A colaboração dos colegas dos pacientes é também importante. Por vezes, pensa-se que ignorar é solução. É errado", disse Filomena Cardoso, docente do ensino secundário.

Os mais pequenos também têm apoio. A educadora de infância Filomena Maia está lá para isso, paga pelo Ministério da Saúde, num olhar que se estende a toda a família, convidada a participar em actividades. Quando a dor aperta, abrem-se ouvidos e corações. E partilham-se lágrimas.

A dona de casa que se tornou na "avó Gena"

O sotaque brasileiro torna a sua voz mais doce. Há 55 anos que Maria Eugénia vive em Portugal, com saudades do Rio Janeiro, terra natal que não vê vai para sete anos. Há 23 que é voluntária na Pediatria do IPO, coordenando, actualmente, a equipa que dá apoio a quem precisa sem nada pedir em troca. E são mais de 20 os homens e mulheres que seguem o seu caminho. A "avó Gena", como é conhecida no serviço, deixou de ser, apenas, dona de casa e entregou-se à tarefa de se tornar em ombro amigo, disponível, carinhoso. Acolhe novos membros do voluntariado como familiares, encaminhando-os numa tarefa difícil mas preciosa quando a vida se complica. "Perante os problemas que encontramos concluimos que, afinal, damos importância a coisas mesquinhas, pequeninas, sem importância", diz. A sua voz doce tornou-se importante. Porque querida.

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