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A Porta de Vandoma e a imagem da padroeira

A Porta de Vandoma e a imagem da padroeira

Julgo que não há portuense que não saiba da existência, no interior da nossa catedral, da imagem de Nossa Senhora de Vandoma, padroeira da cidade. Para quem não esteja recordado, lembro que ela se encontra no lado esquerdo do transepto, para quem entra no templo. Trata- -se da mesma imagem (século XIV) que esteve no Arco de Vandoma (cerca velha), de onde saiu em 1855 quando o arco e as casas que lhe ficavam contíguas foram demolidos. Mas só foi colocada no lugar que actualmente ocupa em 1984. E será a mesma?

A dúvida é de um leitor destas crónicas. Explica ele "… andando a estudar a história de algumas imagens de Nossa Senhora com ligações à toponímia local, ao debruçar-me sobre a da Senhora de Vandoma, constatei, por documentos escritos que consultei e através da iconografia que visualizei, da existência de algumas lacunas, como, por exemplo, a ausência de um manto que aparece em certas estampas antigas a cobrir a cabeça da imagem e a apanhar, também, a cabeça do Menino; a falta de um ceptro (de ouro?) na mão direita da Virgem; e, já agora, por onde andarão as coroas que figuravam nas cabeças, tanto na de Nossa Senhora como na do Menino?"...

Eis aí uma questão pertinente a que vou tentar responder com base em conhecimentos que adquiri quando procurei estudar as cinco imagens da Virgem que mais ligadas andam à história desta cidade. A tradição e a lenda fazem recuar a origem da invocação e do culto de Nossa Senhora de Vandoma no Porto aos séculos IX ou X.

Conta-se o seguinte pelos fins do século X, entrou no rio Douro uma armada de gascões, oriundos da Gasconha francesa, que trouxeram com eles a imagem de Nossa Senhora de Vandoma, que foi colocada no cimo da porta principal do burgo que por isso se passou a chamar Porta de Vandoma.

É mais do que evidente que a imagem actual não é a que veio com os gascões. Outras lhe devem ter sucedido e entre elas a que está actualmente no interior da catedral. E mesmo esta com muitas alterações.

A imagem de que nos vimos ocupando mede 1,95 metros de altura; foi esculpida em calcário ao gosto do gótico francês e apresenta todas as características de uma obra medieval dos começos do século X. Conforme refere o leitor na sua carta, a imagem ostentava na mão direita um ceptro, julga-se que de prata dourada, que desapareceu.

Levaram igualmente sumiço as coroas que estavam na cabeça da santa e do Menino. Para onde foram, mistério. A actual imagem também já não ostenta o véu que lhe cobria a cabeça e a do Menino.

Entretanto, registaram-se outras modificações. Assim, por exemplo, a túnica da imagem era, originalmente, de cor encarnada e o manto azul. Durante as lutas liberais aquelas pinturas foram alteradas em consonância com as cores constitucionais então muito em voga. Assim, o manto passou a ser azul e a túnica branca. Em tempos idos foram atribuídos à imagem de Nossa Senhora de Vandoma muitos milagres. Perto do nicho onde se guardava a imagem, na Porta de Vandoma (ler caixa), vivia um capelão especial para acompanhar os actos de culto que ali se realizavam. Junto da edícula formou-se também uma irmandade com rendimentos próprios e destinada a acompanhar o culto da Senhora.

Outro pormenor curioso que ressalta da imagem é a figura do Menino, nu da cinta para cima e tendo nas mãos uma pomba que parece querer voar. Esta figuração é entendida pelos estudiosos como estando ligada a uma cena que vem descrita nos Evangelhos apócrifos que relatam as infâncias de Jesus e de Tomé revelando-nos o Menino Jesus a modelar avezinhas em barro e às quais dava vida através de um simples sopro.

Destruído o Arco de Vandoma no ano de 1855, como atrás foi referido, a imagem de Nossa Senhora da Vandoma foi levada para a catedral e colocada na capela de S. Vicente, existente nos claustros da Sé. Quase um século depois, em 1954, recolheu ao interior da Sé, tendo-lhe sido destinado um local no transepto do lado da epístola. Passou ainda pelo retábulo do Senhor de Além e só em 1984 é que foi colocada onde agora se encontra.

Quando, nos confins da Idade Média, alguém queria ir à catedral, a partir da Rua Chã, que também se chamou Rua Chã das Eiras, por ter servido para secar os cereais do bispo e do cabido, tinha forçosamente que atravessar uma porta da primitiva muralha romana, muralha cujo perímetro não ia além dos 750 metros compreendendo uma área de quatro hectares. Neste muro havia quatro portas; a principal, a Porta de Vandoma por dar acesso directo à catedral. Era por ali que passavam todas as grandes manifestações religiosas e civis que se realizavam no burgo. Estas muralhas, que durante muitos anos foram consideradas suevas, envolviam o velho castelo do tempo do conde D. Henrique e de D. Teresa, as repartições do bispo e o casario de que sobressaía uma ou outra casa- -torre que eram as residências mais importantes. Numa edícula sobranceira à Porta de Vandoma foi colocada a imagem de Nossa Senhora desta invocação e daí chamar-se indiferentemente Porta ou Capela de Vandoma. Segundo Bernardo Xavier Coutinho, esta foi a imagem de Nossa Senhora mais venerada entre todas as mais tradicionais da cidade. Nas comemorações do Ano Jubilar de Nossa Senhora da Conceição, em 1954, Nossa Senhora de Vandoma foi instituída por D. António Ferreira Gomes como padroeira da cidade.