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"1, 2, 3, 4, 5 minutos de jazz" há 40 anos na rádio nacional

"1, 2, 3, 4, 5 minutos de jazz" há 40 anos na rádio nacional

Há 40 anos, um jovem diletante era convidado para fazer um programa de jazz na Rádio Renascença. Esse jovem era José Duarte e o programa, "Cinco minutos de jazz", viria a tornar-se numa autêntica lenda da rádio nacional não há outro que tenha durado tanto tempo.

"1, 2, 3, 4, 5 minutos de jazz", a frase com que José Duarte imortalizou o programa, esteve na Rádio Renascença até 1975, altura em que sofreu uma interrupção forçada para regressar na Rádio Comercial, em 1983. A partir de 1993, passou a integrar a programação da RDP Antena 1, onde hoje pode ser ouvido, de segunda a sexta, às 18.50, 22.50 e 1.50 horas.

José Duarte, que ao longo dos anos se tornou num dos grandes divulgadores da música negro-americana no nosso país, lembra que "tudo partiu de um convite de João Martins, que faleceu em Outubro passado - era meu amigo de infância - , o radialista mais importante das décadas de 60 e 70, que tinha um programa que toda a gente ouvia, sem excepção, que se chamava "23ª hora". Convidou-me para fazer um programa, mas só me dava cinco minutos. Discuti com ele, pedi 10, 20, 30 minutos, nada...Ele insistiu nos cinco e parece que tinha razão..."

Realizar um programa de rádio em cinco minutos é algo de impensável. Mas José Duarte nunca se atrapalhou e "consigo fazer a abertura, ler um texto, meter um disco, ler outro texto e meter o fecho." Mas os programas nunca têm só cinco minutos. "Normalmente sou respeitado até aos oito. A partir daí os colegas começam a chatear-me..."

Antigamente era mais fácil respeitar os cinco minutos, porque "os discos tinham todos três minutos. Agora, nos modernos, sou obrigado a fazer excertos, que é uma coisa contra o meu feitio. Por exemplo, no tempo do free jazz, cada tema ocupava um lado inteiro de um LP, eram 20 e tal minutos. Era complicado..."

As reacções dos ouvintes nem sempre foram as melhores, mas mesmo assim José Duarte nunca esmoreceu. "Lembro-me que nas primeiras mensagens que recebi, nos anos 60, chamavam-me amante de batuques, racista , amigo dos pretos e que a minha atitude punha em perigo a unidade nacional...Uma senhora insultou-me ao telefone porque chamei concerto a um espectáculo de jazz. Ela dizia-me o senhor não sabe o que são concertos! Na altura achei ofensivo e hoje estou plenamente de acordo com ela: um concerto de jazz é um grande espectáculo."

"Cinco minutos de jazz " deixa José Duarte satisfeito por várias razões e uma em particular "atingiu três gerações."

"Chamaram-me amante de batuques e amigo dos pretos..."

Os 40 anos dos "Cinco minutos de jazz" são devidamente assinalados a partir de hoje através de uma colectânea de quatro discos, onde José Duarte incluiu algumas das faixas jazzísticas que considera marcantes. Funciona como uma espécie de pequena história do jazz, versão José Duarte."É um conjunto de faixas de que gosto e que considero importantes. São anteriores a 1956 para evitar as demoras com as autorizações das editoras . Por exemplo, os americanos umas vezes diziam que sim, outras que não..."

Incluiu "aquelas obras fundamentais que toda a gente gosta e que considera boas para as quais já não é necessário falar com as editoras, embora paguemos aos autores, via SPA."

Nesta colecção de quatro discos, que a partir de hoje e nas próximas três quartas-feiras poderá adquirir com o JN, vai poder conviver com a música de Monk, Coltrane, Ellington,Miles, Parker, entre muitos, muitos outros.

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