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25 anos depois Cavez ainda chora os 15 mortos

25 anos depois Cavez ainda chora os 15 mortos

m quarto de século depois, o tempo ainda não conseguiu devorar do pensamento da população do pequeno lugar de Arosa, na freguesia de Cavez, Cabeceiras de Basto, aquela tragédia da noite de Domingo, 27 de Dezembro de 1981, onde 15 conterrâneos perderam a vida de forma abrupta e outros 14 ficaram feridos. Bastaram poucos segundos para que uma bolsa de água descesse o monte e, arrastando consigo penedos, árvores e tudo que encontrasse no seu caminho, destruísse o café da aldeia, ceifando a vida sem olhar a idades. O mais novo tinha quatro anos e morreu diante dos pais, sem que estes nada pudessem fazer para o salvar. Famílias inteiras ficaram destroçadas e as mães choravam a perda dos seus filhos.

"Eu perdi dois mas a minha vizinha ficou sem três. O meu António tinha 23 anos e era professor e o Manuel tinha 15 e andava no colégio", contou ao JN Teresa Ramos. Esta mulher, de 75 anos, nunca mais sorriu como outrora e desde a tragédia que trabalha porque é o seu "dever" mas a alegria resume-se numa palavra "nenhuma".

Aquele dia 27 de Dezembro não mais saiu da memória colectiva da população de Arosa, mas Teresa Ramos lembra os passos dados pelos seus filhos. "O mais novo nunca tinha saído de casa e naquela noite, como estava a trovejar e a chover muito, eu disse ao meu marido para não deixar ir o mais novo, mas ele quis ir com o irmão. O mais velho esteve a jogar futebol de tarde, em Cavez, e até veio mais cedo para me agradar mas depois foi ao café", recorda. Após a tragédia, esta mãe com o coração despedaçado teve dificuldades em ir ao local da tragédia "porque apareciam sempre, sapatos, chinelos, coisas deles".

Manuel Eduardo Carvalho, agora com 51 anos, não precisou de um grande esforço de memória para se lembrar da tragédia que por pouco não o vitimou, mas que lhe roubou um irmão. "Eu estava no café e ouvi um estrondo grande e a luz falhou. Senti um peso em cima de mim muito frio. Eu ainda consegui sair pela porta mas estava tudo negro e eu só pude chamar pelo meu irmão. Mas a lama era muita".

No café estavam na altura cerca de 30 pessoas, atraídas pelo futebol a que podiam assistir através da única televisão a cores da aldeia.

A tragédia marcou os Bombeiros Voluntários Cabeceirenses. "Estive 28 anos à frente da corporação e nunca vivi coisa igual", afirma o então comandante Manuel Pereira. Há 25 anos as comunicações não estavam tão desenvolvidas como hoje e o trabalho dos voluntários foi coordenado por Manuel Pereira, dentro do quartel. "Quando lá chegamos reparamos que não tínhamos meios, porque só tínhamos duas ambulâncias. Liguei para os CTT e pedi que me disponibilizassem uma linha telefónica para contactar com as Câmaras e corporações de bombeiros vizinhas". Durante toda a noite dezenas de homens trabalharam na remoção das terras e no resgate das vítimas com a ajuda de máquinas "que vieram de toda a região fosse das câmaras, das fábricas e até das serrações".

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