porto

Cursos de formação para "Dar Sentido à Vida" dos sem-abrigo

Cursos de formação para "Dar Sentido à Vida" dos sem-abrigo

Maria José Peneda trabalhou durante sete anos numa instituição com sem- -abrigo e a experiência mostrou- -lhe que era preciso fazer mais. Um dia aconselhou um utente a procurar trabalho e foi, com revolta, que soube que o seu currículo acabou no caixote do lixo. Desde aí, não descansou até conseguir ajudar os sem-abrigo a arranjar emprego. Encontrou resposta numa candidatura ao programa Progride. O projecto "Dar Sentido à Vida" acompanha, desde Junho, 50 pessoas que, por uma razão ou por outra, acabaram na rua. Deste grupo, doze começam, amanhã, a aprender a ser ajudantes de cozinha.

No caso, "Dar Sentido à Vida" é dar uma oportunidade a quem deixou as cadeiras da escola muito cedo e não adquiriu habilitações suficientes para conseguir que o seu currículo mereça mais do que o lixo. A maioria dos inscritos no projecto tem apenas a quarta classe. A média etária é de 47 anos.

"É uma ajuda para caminharem no sentido da auto-sustentação", explica Maria José Peneda, autora da candidatura e directora técnica dos Serviços de Assistência Organizações de Maria (SAOM), Instituição Particular de Solidariedade Social, com sede na Rua das Virtudes (Porto), onde o projecto começa a ganhar vida.

O programa, com duração de quatro anos, visa dar formação profissional e acompanhamento individual, de modo a facilitar a reintegração dos sem-abrigo no mercado de trabalho. Doze dos 50 inscritos foram seleccionados para o primeiro curso (auxiliar de cozinha) que lhes dará equivalência ao sexto ano.

Adaptação à nova vida

Os restantes participantes estão a ser "preparados" para integrarem os próximos cursos (empregado de mesa, ajudante de electricista e picheleiro da construção civil) ou, caso já tenham o sexto ano, estão a ser ajudados na adaptação à nova vida e a encontrar um emprego.

"Nem todos estão preparados para fazerem o curso. São pessoas sem regras, que queremos trazer para este patamar", refere Filipe Miranda, psicólogo, salientando que, entre os inscritos, há toxicodependentes, alcoólicos e pessoas que, simplesmente, perderam o emprego ou divorciaram-se e não souberam lidar com a situação. Histórias que, muitas vezes, acabam por se cruzar. "É assustador pensar que um dia estamos com uma pessoa que no dia seguinte pode estar na rua", sublinha o psicólogo.

Resolver alguns problemas relacionados com documentação, processos de divórcio ou guarda dos filhos são outras questões a que o projecto, que conta com um jurista, pretende dar resposta.

"Não os abandonaremos"

Por agora, o desafio que se coloca é saber se os frequentadores do curso de auxiliar de cozinha vão conseguir terminá-lo. "O modelo de formação não é específico para os sem-abrigo porque pretendemos dar-lhes formação escolar e profissional. Será uma experiência em adultos com características específicas", nota a formadora Luísa Neves.

Se vierem a ter sucesso, os finalistas vão não só ser ajudados a procurar emprego, como serão acompanhados quando estiverem no mercado de trabalho. "Não vamos abandoná-los. Procuraremos estar sempre presentes e em contacto com as entidades empregadoras para gerir eventuais conflitos", assegura Maria José Peneda.

Para já, a expectativa dos alunos é tal que o primeiro curso de formação profissional, inicialmente marcado para Setembro, teve de ser antecipado.

Qualificação escolar

Em Junho do próximo ano, os sem-abrigo que terminarem o curso de auxiliar de cozinha ficam com uma qualificação escolar equivalente ao 6.º ano. Os finalistas saem também com conhecimentos profissionais suficientes para poderem ingressar no mercado de trabalho. Se optarem por fazer um segundo curso (de nível 2) ficam com equivalência ao 9.º ano.

Áreas de formação

Matemática para a vida, linguagem e comunicação, cidadania e empregabilidade e tecnologias de informação são as disciplinas base do curso de formação para auxiliar de cozinha. São as mesmas de qualquer curso EFA (Educação e Formação de Adultos). O curso tem ainda uma componente prática, que será executada na cozinha da sede dos SAOM.

Equipa

Um psicólogo, um técnico social, um jurista e formadores compõem a equipa do projecto "Dar Sentido à Vida", que resultou de uma candidatura à medida dois programa Progride.

Bolsa mensal

Os frequentadores do curso de auxiliar de cozinha, bem como das formações que vão decorrer nos anos seguintes, recebem uma bolsa no valor do salário mínimo nacional, subsídio de transporte, almoço e seguro. Contudo, não poderão acumular essa verba com o Rendimento Mínimo de Inserção e apoios para, por exemplo, pagamento de pensões. O "corte" da Segurança Social, na opinião de Maria José Peneda, é prejudicial porque não "reconhece o esforço" dos sem-abrigo.

Próximos cursos

O projecto "Dar Sentido à Vida" com a duração de quatros anos, vai permitir a realização de quatro cursos, cada um com 12 meses. Em Setembro do próximo ano, arranca o curso de empregado de mesa; em 2008 o de ajudante de electricista da construção civil e, em 2009, o de picheleiro da construção civil. Os cursos foram escolhidos com base em indicadores do Instituto de Emprego e Formação Profissional. São, actualmente, das áreas com mais facilidade de integração no mercado de trabalho.