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Morreu Veiga de Oliveira, o homem de "cara única"

Morreu Veiga de Oliveira, o homem de "cara única"

"Só estou bem comigo próprio quando me exprimo com uma cara única". Foi assim que Álvaro Veiga de Oliveira justificou, nas presidenciais, o apoio a Cavaco Silva, de todo inesperado tratando-se do dono de uma biografia feita do lado esquerdo da política.

A atitude do homem cuja morte, na quinta-feira, só ontem foi tornada pública pela família, depois de cremado no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, terá sido interpretada pelos comunistas como (mais uma) prova da traição de quem vestiu durante 37 anos a camisola do PCP. Para ele, porém, foi um acto de coerência, tal como a interpretava. O seu lema de vida - "responder ao desafio das circunstâncias" - confiou-o em 1988 ao extinto semanário "O Jornal".

"Nunca fiz senão aquilo que entendi que na altura era preciso fazer", disse então. O que era preciso fazer, a seus olhos, no Portugal do pós-guerra, ainda o jovem nascido em S. João da Pesqueira em 1929 estudava Engenharia Civil? Combater o salazarismo. E no PCP da década de 80, atormentado com os novos ventos de Leste? Renovar, mesmo que tal implicasse afrontar Álvaro Cunhal (ler caixa). Veiga de Oliveira fez o percurso típico dos antifascistas passagem pelo MUD Juvenil em 1949, adesão ao PCP em 1954, clandestinidade em 1958, prisão, de 1965 a 1970, no forte de Peniche. Suportou durante mais de um mês a tortura de sono. Até entrar em coma. Sem denunciar camaradas.

Após a Revolução, foi ministro dos Transportes e Comunicações no IV Governo Provisório, de Vasco Gonçalves, e do Equipamento e Obras Públicas, no VI. Deputado (e autarca, em Cascais ), entrou em ruptura com o PCP em 1984. Afastado do grupo parlamentar e do Comité Central, só saiu em 1991, alinhando entre os fundadores da Plataforma de Esquerda.

Aos 69 anos, em 1998, descobriu a sua veia literária. Ao romance "As cercas", marcado pela vivência clandestina, seguiu-se "Burros sem rabo". Em 1999, aderiu ao PS. Numa cerimónia pública em que participaram Mário Soares e Manuel Alegre, que viriam a ser adversários do candidato que apoiou na corrida a Belém.

No imaginário comunista, a resistência à tortura da PIDE guindou Veiga de Oliveira à galeria dos heróis, estatuto que sempre recusou. Era o mais velho membro do "grupo dos seis", pioneiro no combate à linha oficial do PCP, que em 1987 subscreveu um documento, entregue a Álvaro Cunhal, reclamando mudanças. Desencantado, viria a afirmar que o comunismo foi "um embuste gigantesco". A sua acção foi ontem lembrada pelo presidente da República, que o considerou "uma figura marcante do regime democrático". Companheiros de dissidência, Vital Moreira assinalou ontem o seu "percurso irrepreensível" na luta antifascista e Silva Graça recordou o amigo que "agiu sempre de acordo com o que pensava".

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