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Oleiro queixa-se de esquecimento

Oleiro queixa-se de esquecimento

O ceramista José Franco, criador da aldeia típica, no Sobreiro, em Mafra, acusa a família de lhe impedir a entrada neste espaço e de o deixar sem dinheiro para comprar o barro necessário à criação de novas peças.

Aos 86 anos e depois de uma vida repleta de sucessos que o consagraram internacionalmente e em que não faltaram homenagens e até uma condecoração presidencial, José Franco queixa-se de quase todos lhe "virarem as costas" apesar de ainda estar apto para trabalhar na sua arte. Afirma também que a família o impede de entrar na aldeia típica que criou, o que é negado pelos acusados.

A agência Lusa encontrou o oleiro a viver temporariamente num lar, na Ericeira, onde recupera de um problema de saúde. José Franco desfiou um rol de queixas, nomeadamente da família que, segundo afirma, o expulsou do ateliê onde sempre trabalhou, no Sobreiro. Ali moldou o barro durante décadas e foi observado por gerações que testemunharam a concretização de "um sonho", como chama à aldeia.

O espírito do projecto de José Franco - que reproduz uma aldeia mafrense do início do século passado - sempre foi o da partilha e generosidade. Por esta razão, é gratuita a entrada naquele espaço visitado anualmente por milhares de pessoas, principalmente crianças, e apresentado pelo município como atracção turística, a par do convento ou da Tapada de Mafra.

A aldeia cresceu "aos bocadinhos", como lembra. Ali foi erguido um moinho e a azenha, uma orada em louvor de Santo António, um talho, as oficinas do carpinteiro-torneiro, de ferreiro, ferrador, a mercearia onde se vendia um pouco de tudo, a adega e o velho lagar e milhares de ferramentas. Das mãos de José Franco saíram ainda várias figuras de barro que foram distribuídas numa aldeia em miniatura que pode ser observada pelos visitantes.

Como ceramista, viu ainda reconhecido o seu trabalho nos cinco continentes onde estão imortalizadas centenas de figuras, nomeadamente presépios, imagens do Santo António, das Virgens Grávidas ou do Baco (deus do Vinho). Actualmente, existem obras de José Franco nas casas de muitos coleccionadores, mas também em lugares como o Vaticano.

Condecorado pel o então presidente da República Ramalho Eanes, abençoado pelo Papa João Paulo II, José Franco descreve-se hoje como um homem só que vive "sem um tostão". Com limitações de mobilidade - anda com a ajuda de umas andas - o mestre a quem o amigo e escritor brasileiro Jorge Amado chamou "artista do barro e da vida" pede ajuda para continuar a sua obra e diz "sonhar com o regresso" à aldeia típica.

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