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Reclusos purgam passado a estudar

Reclusos purgam passado a estudar

Antes da cadeia a vida era feita de "cobranças difíceis". O que é uma cobrança difícil?, pergunta-se. "Você é mesmo inocente ou faz- -se?", responde Aloísio, com ar de gozo. Bom, um dia a coisa correu mal. Aloísio Filipe, 31 anos, foi condenado a 24 de prisão, por homicídio. No Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, ocupa o tempo entre o trabalho e as aulas. É bom aluno e a escola foi "a melhor coisa que aconteceu", diz.

"Primeiro, estudar tirou-me do pavilhão de segurança; segundo, deu-me oportunidade para participar em actividades desportivas e socioculturais; terceiro, ajuda- -me a mostrar bom comportamento e, mais importante, melhorou-me. Quando há nove anos vim parar à cadeia tinha o 6.º ano, agora tenho o 11.º ano feito. Se nunca tivesse sido apanhado, nunca teria estudado", explica.

O passado de Aloísio não é recomendável. É mais uma história onde quase tudo parece ter falhado até ele ter ripostado em revoltas e violências sucessivas. Em frases soltas, vai desfiando uma narrativa nada feliz, apesar do tom sempre optimista. "Eu nunca conheci o meu pai... Sim, tenho irmãos e sou o mais velho... Tive que abandonar a escola ... Somos pobres."

O resto é previsível, deixou cedo de obedecer à mãe, "a rua passou a ser conselheira", a protecção de menores não parece ter dado pela sua existência, as primeiras experiências de emprego foram de frustração. Um dia, já num outro emprego, aceitou "uma cobrança difícil"."Sabe o que fiz com o dinheiro? Construí um quarto de banho porque não tínhamos", conta.

A escalada começou e a violência foi facturando. O último "serviço" com sucesso deu para, a juntar ao que já tinha, "comprar um carro"."Era fácil.O dinheiro iludia a merda que fazia", diz.

Um dia deu para o torto.E, pelo caminho, morreram inocentes.

Aloísio garante que não quer voltar a fazer "serviços" e, por isso, estuda, é bom aluno, faz exercício físico, resiste às "tentações" e aproveita as oportunidades que o sistema prisional oferece, para um dia poder ter uma vida "natural". "Um emprego, com um salário normal, com filhos, uma família", revela. Tudo o que não teve antes e que, pelos vistos, não é assim tão natural.

Sem saber ler, nem escrever

Nuno Rocha, 35 anos, foi condenado a oito anos, por tráfico, rapto e extorsão. Meteu-se a consumir droga aos 26 anos "sem saber ler, nem escrever e, a partir daí, foi sempre a cair", começa.

Na cadeia, onde cumpriu quatro anos e meio, já tirou um curso de informática, outro de jardinagem e agora está a fazer o Ensino Secundário, também com muito boas notas. Faltam-lhe poucas unidades para completar o equivalente ao 12.º ano e "gostaria de seguir", mas recusa-se a falar do futuro.

"É prematuro. A vida dá voltas. De que vale criar expectativas, se depois tudo pode sair ao contrário. É um dia de cada vez", explica. Mas sabe que não quer voltar à droga e ao que por ela fazia antes. "Só quando estamos do lado de cá é que sabemos os anos que perdemos. Aquele espaço de tempo é em branco", lamenta.

É reservado, observador e as palavras saem a conta-gotas em jeito defensivo. Diz que "é algo que se aprende na cadeia". Mas vai falando da filha de 14 anos. "Ela já fala sobre namorados?". Ao ouvir a questão, fica em silêncio, aflito, gagueja, e depois atira "A brincar que o diga, isso preocupa-me. Não tem namorado, mas está quase da minha altura (1,80 m) e eu não estou lá". No discurso cortado, percebe-se a preocupação e a culpa.

Insiste-se na questão do futuro. "Se não tiver apoio, será complicado, mesmo tendo estudado". Mais não diz. A escola do silêncio é "uma forma de sobreviver", diz. E explica"Para agradarmos a toda a gente aqui, teríamos que ser melhores do que Deus..."

Paulo Gomes

Relações Internacionais

Paulo Gomes, 36 anos, foi condenado a 14 anos de cadeia, por ofensas à integridade física, agravadas pelo resultado. O resultado foi a morte de um homem. Na cadeia, há já seis anos e meio, decidiu estudar. Completou o liceu, entrou para a faculdade e passou agora para o terceiro ano do curso superior de Relações Internacionais, com média de 17 valores. "Adoro estudar. Não irei arranjar emprego nesta área. Mas posso fazer qualquer coisa. Estudar é por uma questão de realização pessoal, de conhecimento, para melhorar-me como pessoa". É tido como preso exemplar e quanto à reclusão diz que merece "Tenho um espírito cristão. Cometi um crime, agora estou no castigo, há-de vir a redenção". Fala no filho com entusiamo e confessa-lhe que fez "uma maldade ". Resumidamente, Paulo era empresário de sapatos e havia alguém que lhe devia dinheiro, recusando-se a pagá-lo apesar de sucessivos avisos. Paulo fez "justiça pelas próprias mãos". Hoje duvida dessa justiça e redime-se a estudar. Ajuda a pensar. "Penso muito. Antes não era assim. Aprendi a ouvir", diz. De semblante tranquilo, acrescenta ainda que leva a vida na cadeia "como uma missão"...

Filipe Pinto

Técnico-profissional de Olaria

"Quando cheguei aqui aproveitei e decidi instruir-me. Não tinha sequer o 6.º ano e agora tenho quase o equivalente ao 9.º, através de um curso técnico-profissional de olaria", conta Filipe Pinto, 28 anos, condenado a sete anos e meio, por ofensas à integridade física.

Filipe era segurança, trabalhou sempre desde os 13 anos e não teve oportunidade para voltar a estudar. Um dia soube que um dos seus quatro irmãos estava no meio de uma cena de pancadaria e foi ver o que se passava. Chegado ao local da briga, viu o irmão "cheio de sangue", pegou na arma e atirou às pernas dos agressores. "Não quis matar, não matei, mas era o meu irmão que ali estava e ele tinha 15 anos". Filipe foi parar à cadeia, onde já cumpriu quatro anos de pena. Filipe não tem um discurso revoltado. "Tenho a oportunidade que nunca tive antes. E quero seguir, talvez engenharia. Quero estudar tanto quanto seja necessário para abrir uma coisa minha. Arquitectura também me passa pela cabeça", revela.

Quando se olha para Filipe não se vê o mínimo indício de agressividade. Não se vê que veio de uma família pobre e não se percebe abandono afectivo. Percebe-se alguém um pouco ansioso, triste, mas calmo a falar, cauteloso. "Evita-se muitos problemas se passarmos o tempo na cela a estudar", confirma. Fala da mulher e da filha com orgulho e diz ainda que "um recluso nunca se habitua à cadeia, integra-se ou não".

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