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Um segredo chamado Artur Gonçalves

Um segredo chamado Artur Gonçalves

Éo homem de quem se fala Artur Gonçalves, fadista dos anos 70. Há poucas semanas, as suas músicas foram gravadas de vinil velho para formato mp3, chegaram à internet e causaram furor junto de uma juventude que desconhecia a sua existência. O radialista Nuno Markl não demorou a passar as músicas no seu programa da Antena 3. Os novos fãs aumentaram. E, nos dias que correm, são cada vez mais aqueles que perguntam: afinal, o que é feito do artista? O JN encontrou a resposta.

Artur Gonçalves chega à entrevista com a mão a afagar a barriga "Acabei de comer um empadão de torresmos", diz. No bolso das calças esconde um cantil de aço inoxidável para bebidas destiladas. O homem é uma personagem fascinante: aos 71 anos, fala pelos cotovelos, esbraceja, é muito expressivo. E conta-nos a sua história: "Fui um pé descalço na Mouraria e a minha mãe vivia numa barraca em Campolide".

Cantor antifascista

Em 1973, gravou o seu primeiro fado "Não passes mais com ele na Musgueira"debruça-se sobre o caso de um ciumento que difama a ex-mulher por esta ter passado com outro à frente de sua casa. É ficção, uma tragicomédia. "Isso ia dando um caso em tribunal", lembra o artista. Tudo porque nessa mesma altura, houve um caso real de um casal da Musgueira que se separou. E a letra, que numa perspectiva marialva enxovalha a mulher, foi acusada de inspiração realista: "Meteu-se-lhe na cabeça que o homem tinha vindo falar comigo e que eu estava a cantar sobre ela", conta o fadista. Mas depois tudo acalmou: "Eu nunca cheguei a conhecer essa marreca".

Uma das facetas de Artur Gonçalves reside na postura política, intervencionista e antifascista das suas letras, a maior parte escritas e gravadas no segundo semestre de 74, depois da Revolução de Abril. Entre as gravações de "Ser fascista" ou "Vamos dar caça à PIDE", o cantor de intervenção garante "Andava sempre nas manifestações para correr com aqueles filhos da...". Não obstante, acusa: "O PCP pôs-me logo de lado". E em que esquerda se situa Artur Gonçalves? "Na ala esquerda do PS", assume sem problemas aquele que já conheceu o amargo sabor da censura - antes e depois do 25 de Abril.

"Eu era o 'raistaparta' e escangalhava alguns fados", sustenta, orgulhoso. As suas letras, em forma de quadras, quintilhas ou sextilhas, são hilariantes.

Artur Gonçalves explica o que o inspirava "Escrevia quanto tinha uma ideia na pinha, quando ouvia um anedota ou quando lia uma notícia no jornal", recorda. E cita um exemplo de uma música "que não me deixaram gravar". A história conta-se assim: "Foi uma bronca há muitos anos: havia um conjunto de putas que andavam a atacar no Bairro Alto. Os quartos não tinham chave e então qualquer pessoa podia lá entrar - elas penduravam o casaco dos clientes na porta e faziam com que os homens se deitassem de costas para a entrada. Os gajos que tinham a carteira no bolso do casaco eram roubados por quem lá entrava. No total roubaram mais de 30 mil contos!", grita, impressionado. Vai daí, escreveu a seguinte quadra: "No Bairro Alto, ali na rua da Barroca / uma quadrilha foi caçada certa vez/ aproveitavam-se dos despejos da piloca/ para despejarem a carteira do freguês". O artista barafusta: "Falei em pilocas e não me deixaram gravar!". E não sustem a revolta: "Embirraram comigo! Ainda ontem vi na televisão alguém dizer "filhos da p...". Não entende por que o impediram de gravar: "É que anda na boca de toda a gente..." (a palavra, entenda-se).

Na despedida, o fadista fez questão de nos oferecer a cassete de "Deixem a minha gaita em paz". A canção é um clássico instantâneo.