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Uma voz silenciada à bomba

Uma voz silenciada à bomba

LLuís Conde e a mulher, Maria Eduarda, acordaram por volta da meia- -noite, com o coração na boca. "Pensei que era a casa da minha filha a cair em cima da nossa", recorda a senhora, ainda hoje na mesma vida de lavoura de há trinta anos. A estrada, vinte metros abaixo, tingida de sangue. Foi o marido um dos primeiros a ver. Maria de Lurdes, no meio da estrada, vestia-se de morte, mesmo respirando ainda. No carro, onde a bomba rebentara, também o padre Max sentia o fim dos dias.

Ainda hoje pairam na Cumieira, às portas de Vila Real, os fantasmas daquela noite, segundo de Abril de 1976. A noite em que um padre de 32 anos, amado pelos que o rodeavam e candidato pela UDP às primeiras eleições para a Assembleia da República, foi silenciado por esse estrondo que acordou Maria Eduarda, ao quilómetro 71 da estrada que leva a Vila Real. A morte de Maximino de Sousa, que as primeiras investigações mascararam de crime passional, foi um assassínio político que ficou por resolver. Junto ao local do atentado, num pequeno abrigo para os que esperam a passagem da carreira, lê-se a frase que, de vez em quando, aparece numa ou noutra parede da freguesia "Padre Max - assassinos à solta".

Até os mais novos, a gente que mais se vê pelos cafés da Cumieira, têm que dizer sobre o crime que, de algum modo, pôs a terra no mapa. E há no ar qualquer coisa que os faz não querer dar o nome, como um homem, de 34 anos, que bebe martinis às portas do almoço "O meu pai é que saberia falar do assunto... Foi aluno dele, ali no centro, mas não está em condições de falar. A saúde... Mas o que ele sempre disse, lá em casa, é que nunca ouviu o padre falar em política".

Processo tortuoso

Fernando Moura é tio de Carlos Alberto, o homem que não morreu por duas centenas de metros e era, ao tempo do crime, director da Casa da Cultura da Cumieira, onde o padre Max dava aulas de Português e Francês a adultos. Carlos apanhou boleia até casa, justamente nas imediações do local onde ainda hoje vive o sr. Fernando, que guarda imagens difusas desse momento "Tenho a impressão de que ainda estivemos ali a comer umas castanhas".

Carlos Alberto é, evidentemente, quem melhor sabe o que foi aquela noite. Mas não está disponível, as feridas subsistem e a névoa ainda encobre os acontecimentos daquele 2 de Abril, a chegar ao segundo aniversário da Revolução dos Cravos. Aquele assassínio que só na década de 1980 deixou de ser visto à luz da tese inicialmente exposta pela Polícia, que partia de uma eventual ligação amorosa entre Maximino e Maria de Lurdes, 18 anos, filha de gente amiga dos tempos da emigração, em França, e protegida do sacerdote. Só quando se investigou a morte de Joaquim Ferreira Torres, ocorrida em 1979, começaram a clarificar-se as ligações entre a morte do padre Max e o MDLP, movimento de direita ligado à rede bombista que, nos anos quentes do pós-revolução, se dedicava a atacar alvos de esquerda.

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Pela persistência de poucos, entre os quais o advogado Mário Brochado Coelho, o processo avançou por caminhos muito tortuosos, resultando numa sentença que condenou, em 1999, o extinto MDLP, mas em que não se deu como provado o envolvimento de alegados autores materiais do crime. Esses estão "à solta", como clamam os tais escritos apócrifos que, de quando em vez, tingem as paredes da Cumieira. E que acabam por ser apagados, tal como uma placa posta no sítio onde estoirou a bomba, destruída logo no dia seguinte.

Max era, em Vila Real, tido como incómodo por muita gente. Esquerdista, talvez avançado para esse tempo em que o país tentava sair do torpor gerado por décadas de silenciamento, agitava as águas, fosse em Vila Real ou na Cumieira, onde chegou para animar o grupo de teatro local, antes de se dedicar ao ensino de trabalhadores-estudantes.

A morte junto aos pés

Mas voltemos a Carlos Alberto, que viajou no Simca amarelo, naquela noite, e sobreviveu por morar a 200 metros do sítio onde a senhora da gadanha estava de atalaia. Encontrámos o irmão, Manuel Armindo, na fábrica onde já trabalhava ao tempo do atentado, e por ele soubemos haver uma decisão colectiva de não falar aos jornais sobre o assunto, por já ter havido "muitos dissabores na família".

Da conversa, informal e sem segredos, fica-nos a sensação de que não há ali, apenas, receio dos que mataram em 1976, mas também amargura em relação a outros que, tendo andado ao lado do padre Max, terão passado para outras bandas ideológicas, logo naquele tempo. Carlos, ficámos a saber, ainda vive com as feridas cravadas na alma ("Então ele teve a bomba encostada aos pés!...").

Na Cumieira, paira a sombra do padre Max, mas também a boa memória. "Tinha jeito de ser um bom cidadão", diz Luís. "Juro por tudo o que é sagrado que nunca se falou de política no teatro", afiança Fernando, que também fala como as paredes "Lá morreu e lá andam eles à solta".

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