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Comerciantes colocam sapos nas lojas para afastar ciganos

Comerciantes colocam sapos nas lojas para afastar ciganos

C omerciantes do Marco de Canaveses estão a usar sapos de porcelana e de barro para afugentar ciganos. A presença de um grupo de cidadãos de etnia cigana no campo da feira tem sido motivo de discórdia permanente entre a vizinhança. Alguns lojistas, conhecendo a forte superstição daquela comunidade em relação aos sapos, colocaram figuras do anfíbio no balcão, para evita visitas "indesejadas" nos respectivos estabelecimentos.

O JN encontrou "exemplares" em cafés e numa loja de lingerie. O recurso aos sapos com este propósito não é uma situação inédita no país (ler caixilho). Ainda assim, não totalmente satisfeitos com os resultados da táctica, os comerciantes estão a promover abaixo-assinados, que prometem remeter à Câmara e à GNR, pedindo que sejam accionados os mecanismos necessários para retirar a comunidade cigana do largo da feira, porque representa "um incómodo". Há queixas de "pequenos furtos, dívidas, mendicidade e de hábitos higieno-sanitários que não se compadecem com a vida actual".

A eventual atribuição do rendimento social de inserção àquelas famílias é também motivo de crítica. "Nunca se sabe quantos são. Eles dão as moradas das pessoas que vivem aqui para receberem o dinheiro", denunciou uma das comerciantes da localidade, solicitando o anonimato por temer represálias. O JN procurou obter esclarecimentos sobre a matéria junto da comunidade cigana, mas não obteve qualquer resposta em tempo útil.

Moda começou na padaria

O café El Trocadero, no campo da feira, e a padaria Real, junto ao estádio municipal, são dois dos estabelecimentos comerciais onde existem os sapos considerados repelentes para a comunidade cigana. Aliás, terão sido os responsáveis da padaria os percursores da moda.

"Foi por ocasião das festas da cidade, depois de um susto que apanhei, quando me vi apertada por um indivíduo cigano e estive quase a ser assaltada. Decidi, então, pôr isto aqui", explica Natália Silva, apontando para o sapo, colocado estrategicamente em cima do balcão, ao lado de um cinzeiro.

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"O certo é que, desde que pus o sapo, deixei de ter esse tipo de clientes por aqui. O único que aqui vem, de vez em quando, vira-se de costas para o sapo, bebe o que tem a beber e vai logo embora, ", acrescentou a mesma comerciante.

Numa loja de lingerie localizada na Rua de Eusébio da Silva Ferreira, foi o roubo de um frasco de perfume, alegadamente por uma mulher de etnia cigana, que levou a lojista Helena Ribeiro a pôr um pequeno sapo de barro entre soutiens, cuecas e perfumes.

Reza a tradição que a comunidade cigana considera o sapo um símbolo de azar, de discórdia, de infelicidade para as famílias. É uma espécie de gato preto ou de sexta-feira 13. Uma superstição de tal forma impregnada na comunidade que chamar sapo a um cigano transforma-se num insulto. A aversão é tão forte que os ciganos evitam, a todo o custo, cruzar-se com um sapo ou com qualquer representação do animal.

Aliás, a estratégia usada no Marco de Canaveses não é inédita. No início de 2004, era notícia a utilização do mesmo esquema na zona do Campo Grande, em Lisboa. Também ali, os comerciantes colocaram sapos em cerâmica ou em plástico nos estabelecimentos para afugentar os membros da comunidade cigana, que eram responsabilizados pela insegurança que atormentava aquela área.

Estas situações vão de encontro aos resultados de um relatório da Comissão Europeia Contra o Racismo e a Intolerância divulgados no início desta semana, segundo os quais a comunidade cigana é a mais discriminada em Portugal. De acordo com o estudo, os ciganos são a minoria que enfrenta mais dificuldades na relação com a população, com as autoridades e com as polícias. Embora o mesmo documento assinale que Portugal não é racista.

"O acesso à educação e a estudos superiores, a discriminação comercial aos serviços públicos, à habitação, bem como a possibilidade de exercer uma actividade económica continuam problemáticos", sentenciou Marc Leyenberger , da Comissão Contra o Racismo e a Intolerância, órgão indepedente do Conselho da Europa que avalia a situação do país nesta matéria.

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