sociedade_e_vida

"Disciplina pode evitar que um filho se torne num pequeno ditador"

"Disciplina pode evitar que um filho se torne num pequeno ditador"

Autor de "A arte de educar" e de "O pequeno ditador", Javier Urra defende que a permissividade excessiva torna as crianças em tiranas. "Mimadas são todas, o problema é quando regateiam e mostram o punho; aí é preciso dizer-lhes 'Podes chorar à vontade, mas não ganhas por chantagem'. Porque, se em público faz birra e ganha sempre, convence-se de que os pais estão ao seu serviço".

Com 49 anos e dois filhos - um rapaz de 28 anos e uma rapariga de 22 -, este psicólogo realça que em 2005 em Espanha houve sete mil denúncias de pais agredidos pelos filhos (entre os 14 e os 18 anos) e, em Setembro de 2006, esta cifra já tinha sido superada.

Jornal de Notícias | Que fazer quando as crianças recusam comer certos alimentos?

Javier Urra | Isso é abdicar de ser pai. Ser pai é fazer do filho o que queremos que seja. Se um jovem quer sair até às quatro da manhã, deve ser dito 'Não, tens 15 anos, vais até à uma e vou buscar-te'. Para isto é preciso que, quando é mais novo, os pais lhe digam para estar com a avó que tem Alzheimer ou levar um brinquedo a um menino. Isto é viver em sociedade. A criança é importante, mas não mais do que o pai, é igual. Não é o rei ou o homem da casa.

E quando o filho manda?

É mais importante ser jovem ou ancião? É bom ser jovem, mas são insatisfeitos. Tenho muito, quero mais. Portugal e Espanha eram países pobres cujos povos sabem o que é só ter sopa com um pouco de bacalhau para comer. Hoje os jovens têm muito dinheiro para sair no fim-de-semana. Quando o professor os enfrenta, os pais vão lá pedir explicações e assim nasce um tirano, um pequeno ditador.

Como se deve impedir isso?

Devem aprender a pôr-se no lugar do outro, acampar, jogar futebol com os amigos. Dantes, as famílias tinham muitos filhos, eram unidos, agora é o filho só que está com os pais, mas não com outras crianças. Domina e acha que o mundo é o que quer.

Como ensinar os pais?

Numa escola de pais. Embora os problemáticos não apareçam para aprenderem a lidar com os filhos e a dividirem tarefas. O homem diz que ajuda, mas fica até mais tarde com os amigos para não ir para casa, partilhar as tarefas e estar com o filho.

E geram agressores?

Trabalhei 27 anos no Tribunal de Justiça, sei que, aos 17 anos, um jovem agride, rouba, viola porque não aceita que uma mulher o rejeite. Porque sempre teve tudo. Isto acontece em famílias de nível social médio, alto e muito alto. Não acontece na etnia cigana ou africana.

As raparigas também?

Apenas duas em cada dez, porque ao rapaz dão-se tarefas de reparação. À rapariga de afecto, que cuide do irmão.

Agrava se o pai for ausente?

Nos países desenvolvidos 20% são mães que vivem só com o filho. Nunca tiveram parceiro e desenvolvem uma relação do tipo"É o meu homem". É errado e perigoso.

Que trata o seu próximo livro?

Trata da relação conjugal. Do eclipse do homem que pretende ser uma segunda mãe, homo, metrossexual, de entrar ou sair do armário. Na cultura do Ocidente, o chefe de família está a desaparecer. Existem pais fantásticos, que andam de bicicleta com os filhos e os levam ao pediatra, mas são pais light, suaves, incapazes de lhes dizer não. Em breve teremos pais ausentes, desaparecidos.

"As crianças tiranas são caprichosas, dão ordens aos pais, organizam a vida familiar, querem ser constantemente o centro da atenção. Desobedecem, são desafiadoras e não aceitam a frustação. São muito irrequietas e não se concentram numa tarefa, dão voltas pela sala de aula e passam de uma coisa para outra".

A definição consta do livro "O pequeno ditador - da criança mimada ao adolescente agressivo" que o autor, Javier Urra, expôs em Lisboa. As causas residem "na sociedade permissiva" que privilegia os direitos em vez dos deveres. Impera, afirma o autor, "o lema de não pôr limites e deixar fazer. Para não os traumatizar é-lhes cedido, permitido e oferecido tudo o que se diz que os pais ou os avós não tiveram", refere. "Passou-se de uma educação de respeito, quase medo do pai e do professor (...) para uma ausência de limites".

"Quer-se alcançar tudo sem esforço", salienta. "As crianças passam muito tempo sozinhas". Os pais estão demasiado cansados e para compensar a falta de tempo, são excessivamente permissivos. Por exemplo, "a refeição é para comer, não se deve partilhar com outras actividades (como ver televisão).

E as crianças devem ter regras, uma hora certa para ir dormir e comer. Ou seja, descanso e ordem.