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Domingos Peres das Eiras o bom cidadão do lugar

Domingos Peres das Eiras o bom cidadão do lugar

Numa das minhas recentes visitas à Sé, na companhia de um simpático grupo de jovens professores, deparei com três amigos meus apostados em encontrar o sítio onde, na catedral, segundo eles, teria sido sepultado Domingos Peres das Eiras - o "bom cidadão do lugar", como o classificou Fernão Lopes na sua "Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória".

Rejubilei por ter constatado que, afinal, e contrariando a ideia, obviamente errada, de que já ninguém quer saber de qual foi o contributo do Porto para o sucesso, a favor de Portugal, da guerra de 1383-1385, ainda há muito boa gente que procura conhecer melhor um dos mais fecundos e patrióticos períodos da história da nossa cidade.

Antes de prosseguir, permita-me o leitor benévolo que lhe lembre quem foi esse Domingos Peres das Eiras, cidadão portuense que tomou o apelido da rua onde naturalmente vivia - a medieval Rua Chã das Eiras. Mas a sua notoriedade não provém do facto de ter ali morado. Como vamos ver.

Viviam-se aqueles tempos tormentosos que se seguiram à morte do rei D. Fernando, o Formoso, em 1383. Os castelhanos cobiçavam a Coroa portuguesa. Nos começos do ano de 1384, Lisboa foi cercada por um numeroso exército espanhol. Ao Norte, tropas galegas, comandados pelo arcebispo de S. Tiago de Compostela, puseram-se a caminho pela estrada de Guimarães com a intenção do tomar o Porto de assalto. Sabendo da aproximação das tropas inimigas, os do Porto saíram do burgo e foram postar-se "ao chafariz de Mijavelhas, que é pequeno espaço da cidade" à espera. Mas o arcebispo não apareceu.

Ao outro dia chegaram emissários à cidade a avisar que os galegos voltavam a aproximar-se. Saíram outra vez os do burgo, agora pela Porta do Olival, "aguardando-os por largo espaço longe da cidade" onde "andaram escaramuçando rijamente…" Diz a crónica que "os galegos retiraram perseguidos pelos nossos…"

Entretanto, davam entrada no rio Douro as galés fieis ao Mestre de Aviz que haviam conseguido escapar ao cerco dos espanhóis. Chegaram "todas pavesadas e bem corregidas, e com grande alegria, dando às trombetas, dizendo duas saudações, como é costume dos mariantes …"

Capitaneava a frota Rui Pereira que mandou juntar todo o povo para ouvir a mensagem do Mestre (de Aviz) em que "pedia auxilio contra a ameaça castelhana que pairava sobre todo o reino" solicitando, especialmente, que "façais deitar as naus e barcas que aqui (no Porto) há na água, e sejam logo equipadas para elas, com estas outras que vieram de Lisboa, irem todas pelejar com a frota de Castela". Pediu mais, Rui Pereira, aos portuenses "… que lhe acorrais (ao Mestre e Defensor do Reino) com uma soma de dinheiros emprestados …"

Em nome da cidade respondeu a Rui Pereira o "bom cidadão" Domingos Peres das Eiras nestes precisos termos "… Rui Pereira, vós dissestes mui bem vossa mensagem e tudo o que vos foi encomendado; e eu digo por mim e por todo este povo que aqui está que nós estamos prestes com boa vontade de servir o Mestre, nosso Senhor, e fazermos tudo o que ele mandar por seu serviço e defensão do reino (….) e porém o ouro, e prata, e dinheiros, e tudo quanto temos, tudo faremos prestes para tal negócio: cá se não podem dispender em coisa mais aguisada que por defensão de nossa terra, e por nunca sermos em poder dos castelãos…"

Com este discurso ficou assente que dali por diante a cidade do Porto daria todo o seu apoio à causa do Mestre de Aviz. Aliás, o Porto foi a segunda cidade portuguesa que aclamou D. João como rei de Portugal.

Era, portanto, o local onde, na catedral, se encontraria a jazida deste bravo portuense, que aqueles meus amigos procuravam. Um portuense daqueles que, durante o domínio episcopal, nunca vergaram a cerviz , que energicamente sempre se bateram pelos seus direitos e liberdades, que corajosamente souberam afrontar o poder eclesiástico e às ameaças de Roma responder com um "!excomunhão não brita osso…"

E, já agora, uma pista para o sítio onde estarão sepultados os restos mortais de Domingos Peres das Eiras. Entre a documentação que foi do Cartório do Cabido e que se guarda no Arquivo Distrital do Porto, referente ao ano de 1392 há uma referência a uma obrigação do Cabido de, todos os anos, a 21 de Fevereiro, mandar celebrar um aniversário (da morte) por Domingos Peres das Eiras cuja campa ficava "na crasta nova, na segunda capela à mão esquerda entrando na dita crasta, sob a campa que estava mais chegada á parede e tinha em cima um escudo com flores e ondas…". Pode ser que ajude.

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