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Cientistas defendem uso do fogo contra incêndios

Cientistas defendem uso do fogo contra incêndios

Autilização de fogo para apagar incêndios florestais é muito antiga e foi usada em Portugal até aos anos 80. "Mas era usada de forma clandestina e quem o fazia não era identificado", recorda António Salgueiro, especialista em gestão do fogo. Hoje, ainda não há enquadramento legal para o recurso a contra-fogos, mas os 18 técnicos dos seis grupos de análise e uso de fogo que apoiam os comandos operacionais em todo o país têm as "costas quentes" estão previstos numa directiva (n.º 2 da Autoridade Nacional de Protecção Civil.

"O que é necessário é fazer sair esta técnica da clandestinidade", declarou ao JN o director-geral dos Recursos Florestais. Ouvido no final da apresentação da base científica de Verão do projecto internacional de investigação "Fire Paradox", que decorre na Lousã, Francisco Rego admitiu que seria vantajosa a previsão da sua utilização na lei, embora as orientações da ANPC e da DGRF já tornem claro que os técnicos que a aplicam têm que estar credenciados e só podem agir por indicação dos comandos operacionais. De resto, o projecto também ajudará a melhorar a legislação portuguesa e europeia, disse Francisco Rego aos jornalistas e convidados.

Outra medida legislativa necessária é a possibilidade de os peritos em uso de fogo poderem intervir noutros países, defende um dos coordenadores do projecto, o investigador francês Eric Rigolot, também ouvido pelo JN. Numa primeira fase, a reciprocidade do reconhecimento da credenciação deve abranger apenas a França, Espanha e Portugal - os três países mais avançados na investigação científica, desenvolvimento tecnológico e transferência de conhecimentos na gestão do fogo, assegurou o especialista, presente na "II Base Científica Europeia do Projecto Fire Paradox".

A "base" junta investigadores e profissionais, acompanhando acções de combate a incêndios e grupos de análise e uso de fogo, aplicando um dos objectivos do projecto - a transferência de conhecimentos e de tecnologia - que já estão a ser utilizados. Exemplo é uma câmara térmica num avião que transmite em tempo real imagens e dados úteis à análise do comportamento do fogo. Outro é a presença de especialistas que podem apoiar as decisões operacionais, designadamente sobre o recurso ou não a técnicas de fogo de supressão (contra-fogo ou fogo táctico), que estão a ser aplicadas em Portugal com fundamentação científica desde o ano passado.

Satisfeita com a oportunidade de beneficiar dessa transferência, a DGRF acolhe uma das ideias essenciais do "Fire Paradox" em certas condições (orografia difícil e grande intensidade e extensão do incêndio) a água é inútil e só o fogo o pode combater.

"O fogo é um mau patrão mas um bom criado", diz um provérbio finlandês que a equipa do projecto gosta de repetir. Além da investigação no seu uso no combate, tem contribuído para a melhoria das técnicas de fogo controlado, que ganham raízes em Portugal. Há 50 técnicos e 100 sapadores certificadas para o aplicar. Na campanha de 2006/07 a DGRF queimou 1500 hectares, mas o ideal é chegar a uma média de dez mil por ano, segundo o director-geral, Paulo Mateus.

Comportamento do fogo

Características físicas, como a velocidade de propagação, dimensão da chama, quantidade e velocidade da libertação de energia.

Fogo controlado

Queimada preparada e executada por equipa credenciada, feita no Inverno para reduzir o combustível numa dada área.

Fogo de supressão

Contrafogo ignição provocada no trajecto do incêndio para encaminhar a chama em certa direcção. Fogo táctico: queima para criar uma faixa de contenção.