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EFANOR 100 anos de memórias

EFANOR 100 anos de memórias

Há um século (1907), num país ainda monárquico, abria na Senhora da Hora, Matosinhos, uma grande fábrica de carrinhos de algodão para coser e bordar. Foi a Empresa Fabril do Norte (Efanor) e nos "tempos áureos", empregou cerca de 3000 operários. Até fechar, noinício dos anos 90. Demolidas as instalações, o grupo Soane começou, recentemente, a construir um grande empreendimento imobiliário e a Fundação de Serralves projecta um edifício multifuncional, onde a arte contemporânea, o património industrial e aligação ao mundo da moda possam ter lugar. O concurso de concepção foi, anteontem, publicado em Diário da República e o projecto vencedor terá um prémio de 20 mil euros. Entre as ruínas e as memórias existe outro futuro a construir.

Os enormes portões de ferro forjado e o gradeamento já foram recuperados e pintados de novo. Lá dentro, na enorme mancha urbana antigamente ocupada pela Efanor, máquinas e operários procedem à remoção de terras e à demolição dos diferentes núcleos da unidade fabril. Como existiu vontade em preservar uma parte das antigas instalações, prevê-se a recuperação dos edifícios da caldeira e dos serviços sociais, sendo este último objecto de estudo e de adaptação para actividades ligadas ao ensino.

No contexto histórico da época, importa referir que a Efanor foi uma "empresa de sucesso". Apesar dos "baixos salários praticados", uma "disciplina de ferro" e um modelo de produção assente na exploração de mão-de-obra intensiva (com Salazar a reprimir pela força qualquer veleidade grevista) a unidade fabril foi pioneira a vários títulos prestou assistência médica e medicamentosa antes do Estado assumir essa responsabilidade e, além do emprego, possuía uma creche e jardim-de-infância (com capacidade para 140 crianças), refeitórios e uma enorme cozinha para servir trabalhadores.

"A Fábrica dos Carrinhos foi muito importante para milhares de famílias. Foi a grande empregadora do Norte do país. Só não conseguiu suportar a forte concorrência internacional dos últimos anos", considerou a investigadora Liliana Pereira, autora de um estudo intitulado "Efanor - um modelo na história industrial de Matosinhos".

Num recente debate ocorrido na Câmara de Matosinhos, englobado num ciclo de conferências sobre a história e património do concelho, Liliana Pereira traçou algumas coordenadas da empresa, evidenciou o papel dos empresários Delfim Pereira da Costa (fundador) e Manuel Pinto de Azevedo, continuador do trabalho desenvolvido. "A Fábrica dos Carrinhos foi a primeira fábrica portuguesa a dispor de luz eléctrica, utilizada em todas as oficinas, escritórios e transmissões, o que assegurava uma melhor qualidade do produto", lembrou a investigadora.

Delgado motiva greve

Na história da empresa existem, porém, episódios que os trabalhadores não esqueceram, como, por exemplo, a primeira greve ocorrida em 1958 e, ao contrário do que faria supor, não foi motivada por aumentos de salários, antes, devido à solidariedade tomada contra a prisão do "médico dos pobres" [Manuel Teixeira Ruela] pela Pide. Como origem, da revolta, o assassínio de Humberto Delgado pela polícia política do fascismo.

"A GNR ainda chegou a cercar-lhe a casa para levar o médico preso, mas os trabalhadores foram solidários. Nesse dia, fizemos greve e a fábrica parou completamente. Recordo-me de ver os cavalos da GNR e os jipes dentro das instalações. Foi uma época muito conturbada", recordou Conceição Almeida, 64 anos, antiga controladora de produção da Efanor.

"Memórias tristes" à parte, muitas operárias preferem, antes, recordar o "ambiente familiar" e as regalias sociais praticadas pela Efanor. "Entrei para a fábrica com 14 anos e quando tive as minhas filhas, levava-as para a creche e infantário da empresa. Foi uma das coisas boas", lembrou Maria da Conceição Vieira, 75 anos, antiga maquinista da secção de fio.

"A fábrica fez parte da minha vida. Trabalhei lá 40 anos, mas depois da guerra viveram-se tempos de grande miséria. Na cantina nunca faltou o bacalhau, mas havia pouco dinheiro", diz Palmira Pereira, 77 anos, antiga ordideira.

Um século depois, Belmiro de Azevedo, que curiosamente teve o primeiro emprego na Efanor, tem hoje uma fundação com o seu nome que irá perpetuar a empresa ligada à história e desenvolvimento industrial do concelho de Matosinhos será o responsável pela divulgação do espólio museológico da fábrica. E no Norte Shopping, propriedade do grupo Sonae, de Belmiro de Azevedo, há máquinas que falam desse património.

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