televisao

"Vila faia" foi a primeira novela a retratar os portugueses em horário nobre

"Vila faia" foi a primeira novela a retratar os portugueses em horário nobre

A 10 de Maio de 1982 a sociedade portuguesa via-se pela primeira vez retratada em horário nobre da RTP. "Vila faia" mostrava as forças e fragilidades de uma família de classe alta, mas a trama acabava por abordar todos os estratos sociais, personificados pelas personagens dos seus empregados e daqueles que os rodeavam.

Seriam alguns destes últimos a ficar mais presentes na memória dos espectadores. Ao invés do tradicional casal afastado por questões económicas ou quezílias familiares, coube ao camionista "João Godunha" (Nicolau Breyner) e à prostituta "Mariette" (Margarida Carpinteiro) as honras de par romântico que emocionou a audiência, já no final, com o destino trágico desta.

"No ano passado fizeram uma prospecção de mercado e o 'João Godunha' ficou em segundo lugar na lista de figuras de televisão mais influentes", revelou Nicolau Breyner, ao JN.

Também "Mariette" continua a ser lembrada a Margarida Carpinteiro "Ainda hoje as pessoas falam dela com muito carinho". No entender da actriz e escritora foi a sensibilidade e inteligência de Francisco Nicholson que permitiu que temas tabu como a droga e a prostituição fossem aceites pelo público. "Os episódios passavam à hora de jantar, quando se estava em família. Não era hábito naquela altura conversar-se sobre estas questões".

Outros papéis marcaram a carreira de novos actores como o estreante Nuno Homem de Sá, o filho rebelde Pedro Marques Vila, que mais recentemente teve um papel marcante com o vilão "António" na novela da TVI "Ninguém como tu". Sem falar dos consagrados Ruy de Carvalho, Mariana Rey Monteiro ou Adelaide João, que contactaram com a nova geração de espectadores, que não os conheciam das emissões de teatro televisionado.

Gravações em cimada hora

Mais e melhores meios, técnicos bem preparados e muitos actores jovens. Estas são as principais diferenças entre fazer telenovelas agora e há um quarto de século atrás. Quem o diz são alguns dos participantes na primeira telenovela portuguesa. Mas desengane-se quem pense que o ritmo de trabalho era menor. "Entrávamos no estúdio às oito da manhã e saíamos pelas quatro, cinco da madrugada", contou Francisco Nicholson argumentista e um dos actores da novela. Um dos motivos prendia-se com o facto de se tratar de uma história aberta. Ou seja, a novela ia sendo escrita de modo a corresponder ao gosto dos espectadores.

"Era extremamente violento. Tivemos gravações em cima da hora, em que estava um estafeta à espera da cassete para a levar à RTP e ser transmitida daí a poucos minutos", acrescentou Margarida Carpinteiro.

Já Nicolau Breyner, outro dos autores, tem opinião diferente "Tínhamos tempo para repetir mais as cenas. Éramos todos amadores, aprendíamos com os erros". Na sua opinião, actualmente "grava-se demasiado, mais do que os brasileiros", o que é "perigoso" para a qualidade da ficção actual. Sem medição de audiências ou estudos de mercado, a receptividade do público chegava aos autores através do contacto directo na rua ou do que se escrevia na Imprensa: "Naquela altura havia poucas revistas especializadas, mas os jornais de referência deram bastante atenção ao assunto", recordou Nicholson.

Outra das diferenças é a indústria de ficção nacional que entretanto se criou. "Passou-se de uma empresa única (Edipim) que fazia novela a novela para uma industria", sublinhou este último. Mais crítico, Nicolau Breyner lembrou que "por várias vezes se quebrou o ritmo de fazer novela", responsabilidade que atribui à RTP, frisando que se tal não tivesse acontecido "teríamos chegado mais rapidamente ao patamar onde nos encontramos".

Foi em Dezembro de 2006 que a RTP anunciou a intenção de produzir uma nova versão de "Vila faia", que poderia estrear no segundo semestre deste ano. Desde então pouco se voltou a falar no projecto, não tendo a Direcção de Programas da estação pública adiantando quaisquer pormenores sobre a iniciativa.

Para Francisco Nicholson, que assinou a primeira versão - com Nicolau Breyner, João Alves da Costa e Thilo Krassman, a partir de um original de Odete de Saint-Maurice - um remake de "Vila faia" implica actualizar a história. "O ciúme, amor e traição são sentimentos que prevalecem. Mas houve uma série de coisas que mudaram na nossa sociedade de maneira gritante", explica. Também Margarida Carpinteiro defende a actualização da história. "Estamos distanciados da época. Hoje a droga é mais grave, a prostituição é um mal que não se curou. É a evolução humana com outros males que, infelizmente, apareceram.

ver mais vídeos