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O apertado regulamentodo antigo Mercado do Anjo

O apertado regulamentodo antigo Mercado do Anjo

Completam-se em Outubro próximo 170 anos sobre a data (1837) em que, por ordem do Município portuense, começou a ser demolido o Recolhimento do Anjo, que havia sido fundado, em 1672, no Campo do Olival, por iniciativa de D. Helena Pereira da Maia, para "recolhimento de donzelas órfãs, pobres, filhas de pais nobres desta cidade".

Logo a seguir, no terreno que ficou vago, começou a ser construído um mercado público que viria a adoptar o nome do antigo recolhimento - Mercado do Anjo. Henrique Duarte e Sousa Reis, que ao tempo da construção do mercado era guarda-sala da Biblioteca Público Municipal, lugar que lhe permitiu o contacto com preciosos manuscritos e, consequentemente, a elaboração de uma preciosa história do Porto, deixou-nos, do Mercado, esta impressão " … Era o melhor desta cidade, inteiramente habitado, coberto por frondoso arvoredo, contendo abundantíssima água, óptimas entradas e cercado de varanda de ferro …"

Na minha vasta colecção de cartas régias, manuscritos, editais avulsos, proclamações e outros documentos, de que possuo algumas centenas, acabo de descobrir um edital camarário, de 28 de Dezembro de 1838, em que o presidente da edilidade dá a conhecer o regulamento pelo qual devia reger-se toda a actividade do Mercado cuja inauguração estava já marcada para o dia 9 de Julho do ano seguinte. Essa cerimónia iria ser aproveitada para a cidade celebrar mais um aniversário da entrada no Porto do Exército Constitucional.

A leitura do referido edital permite-nos fazer uma ideia de quais eram as preocupações dos homens da Câmara com o abastecimento de géneros alimentícios à população do Porto.

O edital começava por definir os sectores onde se iriam vender carnes fumadas e carnes verdes. Assim " … As [barracas] do lado norte são para venda de carnes de porco salgadas, defumadas ou ensacadas; as do lado sul são para as carnes verdes de boi, vitela ou carneiro; e as do poente para todos os mais comestíveis que, de costume e por licença, se vendem nas praças e mercados públicos".

Havia algumas restrições, como esta "… nesta praça não se poderá vender peixe fresco, nem salgado, excepto bacalhau; tudo o mais, bem como os miúdos de boi, continuarão a vender-se no abarracamento junto à Casa dos Expostos, na Cordoaria…" o sítio onde, em Março de 1874, se inaugurou o novo edifício do Mercado do Peixe.

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Aos vendedores de frutas e de hortaliças foram também destinados lugares específicos, mas mediante certas condições "… no centro da Praça se fará a vendagem das hortaliças, dos legumes, das frutas, das aves e de outros géneros mas separados entre si o suficiente afim de se evitar a confusão que sempre resulta da reunião de muitos compradores num só lugar…"

A comodidade dos vendedores e dos visitantes do Mercado não foi esquecida. Consta do edital que "os arruamentos terão o espaço suficiente para o trânsito cómodo do povo". Os vendedores não podiam " fazer, no tanque, colocado no centro da Praça, lavagem alguma asquerosa ou de objectos que lancem mau cheiro ou que sujem a água…"

O regulamento, deveras apertado, não permitia que no interior do recinto em que se fazia o mercado " andem à solta perus, patos, galinhas, carneiros, antes todos os terão presos nos sítios em que forem expostos á venda…"

Os donos das barracas não podiam "ocupar os telhados delas" com "quaisquer géneros à venda, nem com vasos ou outro qualquer objecto…" Também não podiam colocar à sua frente (das barracas, entenda-se) " quaisquer toldos ou empanadas".

Para garantir que o regulamento seria escrupulosamente respeitado havia "sempre no mercado um guarda destinado a manter o sossego e a fazer cumprir o regulamento…"

As portas do mercado abriam ao público, "todos os dias, ao nascer do sol e se fecharão pelas Ave-Marias". Uma sineta dava o sinal de abertura e encerramento do recinto. Apenas a porta principal ficava aberta para serventia dos moradores das barracas e para, nas madrugadas, se proverem as lojas de carnes verdes.

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