Arte do dia

As ruas são livros a céu aberto

As ruas são livros a céu aberto

Muito antes de os garatujos ('graffitis' em inglês) tomarem de assalto os muros das nossas cidades, era frequente encontrarmos nessas mesmas paredes escritos tão urgentes quanto desarmantes. De muitos desses ditos não resta um único vestígio, mas ainda há muito por ver ou, pelo menos, recordar.

Não há outro modo de pôr as coisas: temos saudades da rua. Dos cheiros, dos ruídos e de todo um tropel sem fim que nos faz esquecer ou até relegar para secundaríssimo plano os encontrões, os dejetos na via pública e os hábitos de higiene (ou a falta deles) de muitos transeuntes.

Nesse espaço sem fim que são as ruas - em que, parafraseando Mário Cesariny de Vasconcelos, tanto nos encontramos como nos perdemos -, a poesia não é um lugar ausente. No sentido metafórico e também no real.

Aliás, um dos maiores equívocos que por aí grassa é o de se colocarem em planos opostos a literatura e a vida, como se uma pudesse dispensar a outra. A primeira sem a segunda é um exercício artificial desprovido de interesse, ao passo que o inverso significa um mero desfiar de dias, isento de significado e de reflexão.

Sobre a relação íntima entre a matéria prima que são as palavras e o uso que nós, falantes e escreventes, lhes damos, ocupou-se já o notável Museu da Lingua Portuguesa, em São Paulo. Numa exposição intitulada "A poesia agora" - realizada há seis anos, mas cujo conteúdo ainda se pode encontrar de forma avulsa na rede -, autores de várias gerações e proveniências foram convocados a contribuir ativamente para esse diálogo vivo e franco entre a língua e a poesia a partir do quotidiano.

O que espreita por essas palavras de ordem feitas de rutura e alergia ao compromisso são apelos conjuntos tanto à ação como à reflexão. Se "o poema muda o sentido do caminho", existe também a convicção de que um dia, quiçá não muito distante, "as ideias voltarão a ser perigosas". Acima de tudo, há que "descoisificar as coisas e poesificá-las".

PUB


Passam em abril 70 anos desde que Jack Kerouac escreveu a primeira versão de "On the road/Pela estrada fora". O livro só sairia seis anos depois mas demoraria bem menos para se inscrever solidamente na cultura popular, para desagrado do próprio Kerouac, farto das apropriações indevidas que a obra não tardaria a ter (da cultura 'hippie', por exemplo, da qual se distanciou com vigor).
Aproveitamentos ou não à parte, este é um romance que não se limita a narrar as viagens sem fim de Sal Paradise e do seu amigo Dean Moriarty. É, mais do que tudo, uma elegia à liberdade, assente na divisa - extraída do livro - de "nada atrás de mim, tudo à minha frente, como sempre, na estrada".

O mundo seria um tudo mais esperançoso se as tão populares (e vazias...) frases motivacionais com que tantos enfeitam os murais das suas redes sociais fossem substituídas pelos quase sempre mais assertivos slogans - não publicitários, bem entendido - espalhados pelas ruas.

Há-os para todos os gostos. Alguns lograram vencer até a barreira do tempo (quem não se lembra do manifesto contra as habitações desocupadas, exemplarmente sintetizado na frase "tanta casa sem gente, tanta gente sem casa"?).

Espirituosas ou filosóficas - "não existem significados, a sabedoria é abrir outra lata de cerveja", lê-se num caixote de lixo (erudito, pois claro) em Madrid -, as frases estão, todavia, sempre irmanadas pelo desejo de insubmissão e pela vontade de transformar o real através da palavra poética, como se pode ler num mural da capital espanhola:

Resgatar a energia das ruas e das cidades, sobretudo as localizadas em meios periféricos ou marginais, e incorporá-la nos livros. Foi este o notável feito que James Baldwin, nome maior das letras americanas e figura de primeira água dos direitos civis, alcançou ao longo da sua vida. Um dos pontos altos dessa demanda foi o romance "Se esta rua falasse". A história do amor adolescente entre Josh e Fonny é apenas o ponto a partir do qual Baldwin tece com mestria destinos que podiam desenrolar-se em qualquer lugar, em qualquer tempo.

Muitos poetas escrevem sobre a rua, mas poucos o fazem na... rua. Desse pecadilho não pode ser acusada uma jovem autora norte-americana chamada Cassandra Davies que fez da rua o seu escritório. Literalmente. Com a velha máquina de escrever herdada dos avós a tiracolo, ataca furiosamente as teclas, propondo-se escrever um poema pela bagatela de dois dólares:

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG