Entrevista

Carlos Ruiz Zafón: "A mim, as musas não segredam ideias"

Carlos Ruiz Zafón: "A mim, as musas não segredam ideias"

Em 2016, Carlos Ruiz Zafón publicou o "O labirinto dos espíritos", o quarto volume da saga "O cemitério dos livros esquecidos", iniciada em 2001 com "A sombra do vento", e conversou, nessa altura, com o JN. O escritor morreu, esta sexta-feira, aos 55 anos. Releia a entrevista.

No ano em que se celebram 15 anos da publicação que tornou Carlos Ruiz Zafón um nome conhecido à escala mundial, a história centrada no livreiro Daniel Sempere e na sua família, na Barcelona do século passado, chega ao seu desenlace, assim se completando uma tetralogia que inclui ainda os volumes "O jogo do anjo", em 2008, e "O prisioneiro do céu", em 2011.

"Foram 15 anos de trabalho para concluir esta saga. Nunca pensei que demoraria tanto tempo a escrevê-la. Foram anos de viagens, de apresentação de livros, de escrever e de reescrever. A ideia foi crescendo, eu próprio também fui amadurecendo, olhando de outra maneira para o que ia escrevendo", contou o autor, que esteve a promover o livro em Lisboa. Carlos Ruiz Zafón explicou que a sua ideia inicial foi criar algo mais do que uma saga.

"Quis que fosse uma espécie de labirinto de histórias que teriam diferentes portas de entrada e que, com o tempo, os leitores poderiam explorar essas histórias em diferentes direções. Assim, quem tenha lido os livros pela ordem em que se publicaram, talvez anos depois queira revisitar este mundo".

O autor afirma que "O labirinto dos espíritos" mais não faz do que ser uma espécie de última pedra de encaixe do enredo narrativo que foi criando. "Agora, os leitores podem descobrir diferentes ângulos, coisas que não viram da primeira vez". Zafón explicou que sempre pensou que a saga teria quatro volumes. "O primeiro, seria o livro de um leitor, o segundo, o de um escritor, o terceiro, o de um personagem, e o quarto o do narrador, o meu livro. Esta era a ideia original, mas foi mudando com os anos", confessou. Até porque, como assinala, "este foi um processo orgânico que me permitiu explorá-lo à medida que os livros foram saindo. Comecei a escrever a saga aos 33 anos. Agora, sou um pouco mais velho. A minha própria perspetiva sobre os personagens, sobre os temas, também foi mudando e os livros foram mudando comigo".

"O labirinto dos espíritos" inicia-se nos finais dos anos 50, em Barcelona. Daniel Sempere, casado com Bea e com um filho, prossegue as investigações sobre a morte da sua mãe. Neste derradeiro volume da saga, surge um novo personagem, Alicia Gris. "Esta é uma personagem que me é muito próxima, embora possa parecer estranho. Para mim, Alícia Gris é a alma destes livros. Deixei-a para o final, não porque fosse menos importante, mas porque este era o momento em que ela deveria entrar em cena", justificou. Mas Carlos Ruiz Zafón também reconhece que há outras duas figuras com as quais se identifica, que são, como afirma, uma parte de si mesmo. "Uma delas é Fermin e outra Julian Carax, autor obscuro de "A sombra de vento", que é quase uma caricatura de mim mesmo".

A saga agora concluída "é uma homenagem ao mundo dos livros, dos autores, dos escritores, dos bibliotecários, dos livreiros, dos tradutores. Quis também fazer uma reflexão sobre o que é a literatura, sobre o que são os géneros literários. Os quatro livros tentam combinar tudo isto numa grande carta de amor à literatura, à palavra escrita, à linguagem literária. Quis criar uma história na qual se conjugassem todos os géneros literários: o policial, o histórico, a tragédia, a sátira, a comédia as histórias de amor e também as de terror. Todos esses géneros estão aqui misturados".

Para o escritor catalão, a literatura é um trabalho, é a consequência de um esforço e não da inspiração. "A noção de inspiração de que as musas segredam ao ouvido, não faz parte do meu modo de escrever. A mim, as musas não me segredam ideias".

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