Fraude

Mistério dos manuscritos roubados sobressalta mundo dos livros

Mistério dos manuscritos roubados sobressalta mundo dos livros

Margaret Atwood, Jo Nesbø e Ian McEwan são apenas alguns dos escritores que viram os seus livros serem alvo da atenção dos piratas informáticos. O caso está a sobressaltar o meio livreiro e editorial, até porque os verdadeiros intentos dos autores da fraude ainda são desconhecidos.


Tudo começa com um email de um suposto editor dirigido a um escritor em que é solicitado o envio do seu novo manuscrito. Só quando o documento é remetido e do pretenso editor não chega mais nenhum contacto, o autor descobre o logro em que incorreu.

O caso foi denunciado nesta segunda-feira por "The New York Times", que acrescenta ainda o nome de Ethan Hawke, conhecido ator e realizador que também escreve regularmente, à lista de autores vítimas desta burla insólita.

O esquema ilícito é referido ainda com laivos de estranheza, porque, ao contrário do que acontece com os dados bancários, segredos de Estado ou informações privilegiadas, ninguém percebeu ainda a razão pela qual são hackeados estes manuscritos não publicados, tanto de autores estabelecidos como novos.

Se é certo que as obras de autores como Margaret Atwood ou Ian McEwan têm um valor comercial associado ao peso literário, a verdade é que o conteúdo não foi ainda libertado na chamada "deep web" (a chamada zona negra da Internet, onde são transacionados produtos obtidos de forma ilícita) nem sequer foi pedido qualquer resgate pela devolução dos documentos.

"Parece que ninguém sabe nada além do facto em si e isso é o que é inquietante", adiantou ao periódico norte-americano o editor David Halpern, também vítima do golpe.

A ausência de móbil monetário até à data adensa a suspeita dos que acham que se trata mais de um exercício sofisticado e distorcido de estilo do que de um plano maquiavélico para subtrair dinheiro dos editores ou escritores.

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Até aos presentes ataques, o alvo dos piratas informáticos no que à cultura e entretenimento diz respeito têm sido os grandes estúdios cinematográficos. Cópias de algumas das mais aguardadas películas da temporada são pirateadas e devolvidas apenas depois do pagamento de chorudas somas de resgate. Em 2014, Quentin Tarantino viu o seu argumento para "Os oito odiados" ser libertado na Internet, o que desencadeou da parte do realizador ameaças de encerrar a produção antes mesmo de ela se iniciar. Mas, neste caso em concreto, nenhuma verba em concreto foi solicitada.

Não se sabe se estes roubos em escala têm sido cometidos apenas por um golpista ou, se pelo contrário, há toda uma rede de envolvidos. O que parece certo é que o(s) autor(es) conhece(m) bem cada um dos passos que um original leva até à estante das livrarias.

Essa suspeita radica no facto de os e-mails enviados conterem alusões a informações previamente veiculadas nos meios de comunicação ou redes sociais sobre a compra de direitos de uma obra ou até planos de publicação de outra. Outra prova de que quem está por detrás dos ataques conhece bem os meandros do meio editorial é o uso frequente de abreviaturas ou termos técnicos e ainda o recurso a e-mails personalizados para transmitirem a imagem de que se trata de um agente específico a escrever para um determinado autor. As pequenas alterações nos nomes de domínio - como penguinrandornhouse.com em vez de penguinrandomhouse.com, com um "rn" no lugar de um "m" - passam despercebidas num primeiro olhar, aumentando a confiança gerada no destinatário.

Ao jornal britânico "The Guardian", a agente literária Catherine Eccles mostrou-se impressionada com o grau de perfecionismo dos envolvidos: "Eles sabem quem são os nossos clientes e como interagimos com eles. São muito, muito bons".

Apesar de só agora chegarem relatos dos Estados Unidos e Inglaterra, há ecos destas manobras de phishing' ocorridas junto de autores, agentes e editoras em lugares como a Suécia, Taiwan, Israel e Itália.

Presentes entre os afetados, os escritores ditos consagrados estão longe de ser as vítimas preferenciais dos golpistas, aparentemente mais focados nos autores em ascensão. Foi o caso de Cynthia D"Aprix Sweeney, autora do romance de estreia "The nest", ludibriada por alguém que fingia ser o seu agente, Henry Dunow.

Quando se encontrava a escrever o seu segundo romance, começou a receber emails do suposto agente a solicitar-lhe o envio do manuscrito parcial. Sweeney achou o contacto tão estranho que falou de imediato como seu agente, cuja reação foi de absoluto espanto por desconhecer o que se estava a passar.

Esse interesse muito concreto por escritores em ascensão reforça a teoria dos que acreditam que o esquema é obra de alguém que pertence à comunidade dos "scouts", vulgo olheiros. A função destes profissionais é a de organizar a venda dos direitos do livro para editoras internacionais ou para produtores de cinema e televisão. A sua fonte de financiamento advém do valor que os clientes pagam para terem acesso antecipado a informação privilegiada, como é o caso evidente de um manuscrito não editado.

É precisamente a atração particular por livros que não estão sequer concluídos que tem abalado muitos autores, desconfortáveis com a perspetiva de o esboço inicial dos seus livros poder ser partilhado em público. "Sentimo-nos violados. Não quero que ninguém saiba o quão ruins são os primeiros rascunhos das coisas que escrevemos", afirmou ao NYT o escritor James Hannaham.

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