Arte do Dia

A alegria é um ato de resistência

A alegria é um ato de resistência

Talvez o melhor hino de 2021 tenha sido escrito em 2018, e talvez só tenhamos consciência disso porque um palhaço chamado Rui Paixão decidiu ligar a luz em cima de um álbum dos Idles. Ser punk hoje é sobreviver. E sobretudo manter o coração no lugar certo.

Malcolm X vira-se para Sam Cooke e diz: "I"ve got something for your ass!" ("Tenho aqui uma coisa para ti", em tradução trivial). Depois desembainha um disco de vinil, coloca-o na vitrola e põe a tocar "Blowing in the wind". É uma canção de um homem branco, e Malcolm X, ministro do ativismo negro, quer mostrar ao cantor Sam Cooke, já ali um príncipe da soul e do R&B, que até Bob Dylan é mais ativista do que ele.

Estávamos em 25 de fevereiro de 1964, em Miami Beach, na Flórida, e naquele quarto de hotel, além de Malcolm e Cooke, estavam mais duas estrelas negras: o lutador de boxe Cassius Clay, que em breve haveria de chamar-se Muhammad Ali, e Jim Brown, um dos maiores jogadores de sempre de futebol americano.

Está tudo encapsulado no filme "One night in Miami", que marca a estreia de Regina King na realização e que estreou a 8 de janeiro no serviço de streaming da Amazon Prime Video. Povoado de dor, nostalgia e fantasmas do futuro, o resultado é um drama fascinante e nutritivo, perfume para os Oscars, que imagina o relato fictício de uma incrível noite em que quatro ícones da convulsão cultural dos anos 1960 se reuniram para discutir os seus papéis no movimento pelos direitos civis da América Negra.

Mas o que fez Sam Cooke quando Malcolm X o aferroou com Dylan? Explodiu e virou costas. "Fiquei furioso, queria ter sido eu a escrever essa canção", disse depois o cantor. Mas a mordedura vingou: ainda nesse ano, o ano da morte de Cooke aos 33 anos, escreveu e gravou "A change is gonna come", canção dulcíssima que se transformaria num hino do movimento pelos direitos civis dos afro-americanos.

Em 2007, a canção foi eleita para preservação histórica na Biblioteca do Congresso norte-americano e, um ano depois, voltaria a fazer história. Foi quando Barack Obama, no discurso de vitória das eleições presidenciais de 2008, na gloriosa noite do Grant Park de Chicago, se dirigiu aos seus apoiantes e a citou com o coração: "It's been a long time coming, but tonight, change has come to America" ("Demorou muito a chegar, mas esta noite a mudança chegou à América").

O segundo disco dos Idles, britânicos do pós punk e do pós vício, dificilmente terá honras idênticas, mas aquele álbum de 2018 encerra grande parte do que sentimos em 2021, a tragédia da doença e da perda, o anacronimo do machismo e da homofobia, o asco que continua a ser o racismo e mais uma coleção de desgraças mais ou menos avulsas. E, ainda assim, a banda de Bristol decidiu batizar este disco como "Joy as an Act of Resistance" ("A alegria é um ato de resistência").

PUB

A declaração ganhou um novo impulso no final do ano passado quando o soberbo Rui Paixão, primeiro português a integrar o Cirque du Soleil como criador original, adotou a frase para encarnar um inesquecível mestre de cerimónias no Circo de Natal do Coliseu Porto. Já não é natal, mas aquele espectáculo que tem mais poesia nos gestos do que variedades artísticas, ainda pode (e deve) ser visto em streaming na plataforma Ticketline Live Stage.

E agora uma canção imprevista e exultante, que traz com ela uma boa notícia: Darkside, o duo electrónico criado por Nicolas Jaar com o guitarrista Dave Harrington, que foi extinto em 2016 após apenas um álbum e dois EPs, ressuscitou e vai editar novo disco na primavera. Há duas semanas saiu um single de avanço, "Liberty bell", é caso para gloriar e ouvir em repeat.

Como tudo o que Jaar faz, a canção é translúcida e densa, eletrificada e orgânica, embrulhando-nos constantemente em novas configurações. E está cheia de melancolia. Ou então é só a nossa memória do Primavera Sound Porto 2014, onde atuaram numa bela bruma a querer rasgar-nos o corpo do confinamento para desatar a dançar.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG