Arte do Dia

A bolsa e a vida

O êxito da série "Lupin" pode ter chamado a atenção dos mais incautos para a estreita ligação entre o crime e a arte, mas, na realidade, o apelo não é recente. Porque gostamos tanto afinal dos vilões?

Na "vida real" - seja lá o que isso signifique - não nos vemos a agir deste modo com frequência: a torcer pelo 'mau da fita', esperando que os seus dotes de sagacidade sejam suficientes para escapar à mão da lei. Mas na ficção, território do impossível por natureza, quantas vezes não nos vemos a desejar que o ladrão leve os seus planos por diante?

Estreada recentemente na plataforma Netflix, a série "Lupin" junta-se à longa lista de burlões, vigaristas ou simples patifes que, por razões óbvias ou escuras, caem no goto dos espectadores.

No caso desta produção francesa, com resultados de audiência tão esmagadores que se aproximaram mesmo dos números de "A casa de papel", Assane Diop (protagonizado por Omar Sy) nem é mau diabo. Apenas recorre ao crime para poder vingar-se daqueles que condenaram injustamente o pai a uma pena de 25 anos no cárcere.

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Como tantas vezes acontece, foi aos livros que os criadores da série recorreram para buscar inspiração. Mais concretamente ao escritor Maurice Leblanc (1864-1941), o 'pai' de Arsène Lupin. Repórter criminal durante anos a fio, o autor aproveitou essa experiência para dar corpo à figura de um "cavalheiro ladrão", título precisamente de um dos livros publicados recentemente em Portugal, no afã de captar algum do público da série televisiva.

O mesmo percurso - dos livros para os ecrãs - foi seguido pela magistral criação de Patricia High Smith, que dá pelo nome de Tom Ripley. A sua primeira aparição literária aconteceu no romance de 1955 "O talentoso Mr. Ripley". A adesão dos leitores a este burlão charmoso e brilhante foi tal que Highsmith se viu 'obrigada' a convocá-lo para mais quatro livros.

O apelo cinematográfico (mas também televisivo) não tardou. Desde Alain Delon, em 1960, a Matt Damon, muitos foram os atores que deram forma ao genial vigarista, mas, se pudéssemos escolher só um, a preferência recairia inevitavelmente sobre John Malkovich que, em 2002, fez de "O jogo de Mr. Ripley" um hino à arte de bem representar.

Associamos, de forma quase inata, os burlões à destreza e sagacidade. Não se pense, todavia, que os trôpegos, toscos e trapalhões estão arredados das histórias. Woody Allen deu um forte contributo nesse sentido, ao filmar, em 2000, "Vigaristas de bairro". Longe de ser um dos pontos altos da sua cinematografia, é um filme despretensioso e divertido que dá a conhecer o percurso de um ladrão de segunda categoria que, na tentativa de assaltar um banco, cria um negócio de fachada mesmo ao lado da sucursal bancária. O plano seria simples, não fosse a total falta de talento e sorte do meliante...

O Mal e o Bem sempre se vigiaram na curta vida de François Villon (1431-1463). Poeta de exceção, foi também um boémio incorrigível, entregando-se também ao mundo do crime. Perseguido pelas autoridades desde muito jovem, trocou os estudos pela aventura, chegando mesmo a matar um dos seus rivais.

Um dos seus poemas mais célebres, "A balada dos enforcados" é exemplar pela forma como Villon transporta para a sua escrita a multiplicidade de vivências que experienciou na sua curta existência.

A balada dos enforcados

Irmãos humanos que ao redor viveis,
Não nos olheis com duro coração,
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão.
Aqui nos vedes presos, cinco, seis:
Quanto era cara viva que comia
Foi devorado e em pouco apodrecia.
Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós.
Que de nossa aflição ninguém se ria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Se dizemos irmãos, vós não deveis
Sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados.
Desculpai-nos, que já estamos gelados,
Perante o filho da Virgem Maria.
Que seu favor não nos falte um só dia
Para livrar-nos do inimigo atroz.
Estamos mortos: que ninguém sorria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados,
Corvos furaram nossos olhos e eis-
Nos de pelos e cílios despojados,
Paralíticos, nunca mais parados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia,
Ao seu talante, sem cessar, levados,
Mais bicados do que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Meu príncipe Jesus, que a tudo vês,
Não nos entregues à soberania
Do Inferno, que só ouvimos tua voz.
Homens, aqui não cabe zombaria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

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