Literatura

A cápsula do tempo de Woody Allen

A cápsula do tempo de Woody Allen

"Gravidade zero" traz-nos uma nova recolha de histórias do cineasta Woody Allen, numa autêntica declaração de princípios do seu humor. A fórmula "mais do mesmo" é, neste caso concreto, uma boa notícia.

Empenhado em salvar a sua carreira das acusações insidiosas de que tem sido alvo com frequência, Woody Allen tem estado (compreensivelmente) afastado da escrita de humor. Mesmo que qualquer dos seus filmes tenha sempre uma propensão natural para o riso, há 15 anos - desde "Pura anarquia" - que o mais nova iorquino dos cineastas não publicava ficção humorística, na esteira dos marcantes "Para acabar de vez com a cultura" ou "Sem penas".

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Estranhamente ou talvez não, essa longa espera que agora terminou não fez aumentar por aí além a visibilidade mediática do livro, publicado, tal como a recente autobiografia, por uma pequena editora independente, depois da deserção das "majors".

O silêncio pesado em redor daquilo que, em circunstâncias normais, seria sempre um acontecimento, só pode ser entendível à luz da inclusão de Allen na lista negra dos barulhentos seguidores da infame "cultura de cancelamento" e encontra o exemplo máximo num episódio paradoxal: embora perto de metade das curtas histórias reunidas no livro tenham sido originalmente publicadas na influente "New Yorker", o realizador encontra-se desde 2013 banido das páginas da revista.

Num mundo feito de convulsões várias, não há muitas coisas com as quais sabemos que podemos contar de antemão (tirando, como se sabe, a morte, os impostos e as promessas eleitorais fantasiosas). O humor de Woody Allen é, felizmente, uma delas. Nas duas dezenas de narrativas reunidas no livro, a gravidade fica à porta, (bem) substituída pela sucessão delirante de "gags" com as quais o autor se compraz a demonstrar as fraquezas sem fim da espécie humana, mesmo que ocultadas pela fina casca da civilização.

Por entre uma imensidão de referências eruditas, há uma plêiade de inúteis, fracassados e pomposos que se veem envolvidos nas situações mais caricatas, para gáudio de todos nós, leitores.

Em clara oposição com os curtos contos anteriores, todos eles desbragados, surge-nos "Crescer em Manhattan". Num relato mais enxuto, ainda que não desprovido de humor, Allen fala-nos de Jerry Sachs, um dos seus infindáveis alter-egos. Mais do que a história de um dramaturgo que sonha com o momento em que a sua peça irá finalmente ser mostrada ao público, o que vemos é uma homenagem deslumbrante à Nova Iorque da sua juventude, polvilhada pelas figuras artísticas que a ajudaram a cimentar o seu prestígio. v

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