Arte do Dia

A colina que escalamos

"De alguma maneira resistimos
De alguma maneira aguentámos
e testemunhámos uma nação
que não está quebrada,
apenas inacabada.

(...)
Se mais ninguém o disser,
que o mundo diga que isto é verdade:
Que mesmo enquanto sofríamos, crescemos
Que mesmo sofrendo, esperámos
Que mesmo cansados, tentámos
Que estaremos para sempre juntos, vitoriosos
Não porque nunca mais conheceremos a derrota
mas porque nunca mais semearemos divisão.
(...)
Se vivermos de acordo com nosso tempo
a vitória não estará na rutura
Mas nas pontes que fizermos
Essa é a colina que escalamos.

Amanda Gorman (n. 1988, Los Angeles), negra de 22 anos, filha de mãe solteira, formada em Sociologia pela Universidade de Harvard, escreveu o belíssimo poema "The hill we climb" ("A colina que escalamos") para a tomada de posse de Joe Biden, o 46.º presidente dos Estados Unidos da América, e não só protagonizou o momento mais comovente da cerimónia, como se tornou na escritora mais jovem de sempre a declamar um poema durante a cerimónia. Mas não é só a poesia, forma de resistência, que regressa à Casa Branca, é uma paz nova e novas possibilidades. Como diz o poema de Amanda, "a democracia pode ser temporariamente adiada mas não pode ser permanentemente derrotada".

Também houve Lady Gaga a cantar o Hino Nacional, ela que se prepara para um novo filme, agora ao lado de Brat Pitt, e Jennifer Lopez a falar espanhol, lembrando que ali cabem todos, e a cantar "This Land Is Your Land", e Garth Brooks a cantar "Amazing Grace", mas o o hino verdadeiro, aquele que nos mostra que a América é capaz do pior mas também do melhor, coube a Joe Biden, democrático e católico, 78 anos, o mundo nas mãos, a vida de uma nação a renascer num discurso - ""A Bíblia diz-nos que há um tempo certo para tudo, um tempo para construir, para colher e para semear, este é um tempo para curar e unir." - e a Kamala Harris, a primeira mulher negra, a primeira mulher de origem sul-asiática e a primeira filha de emigrantes a ser eleita vice presidente da América. A primeira mulher. O mundo mudou ontem.

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Hoje muda a vida da essencialíssima produtora portuguesa de cinema O Som e a Fúria, que pela primeira vez vai colocar o seu catálogo online, na plataforma do Vimeo, na modalidade de aluguer pago. Agora no ecrã caseiro de cada um, aqueles filmes ficarão disponíveis às quintas-feiras, dia tradicional das estreias.

O primeiro é "Tabu", visão da perfuração de dois corações (Carlota Cotta e Ana Moreira) a partir do fundo décor da Guerra Colonial. Gracioso, excêntrico e virtuoso, é como se víssemos uma sobreposição do "Tabu" de Murnau (1931) e do "África minha" (1985) de Sydney Pollack.

As estreias seguintes, programadas até ao final de maio, são: "Volta à terra" (2014), de João Pedro Plácido; "As mil e uma noites" (2015), tríptico de Miguel Gomes; "Cartas da guerra" (2016), de Ivo M. Ferreira, "Technoboss", de João Nicolau (2019), "Ruínas", de Manuel Mozos (2009); "El dorado XXI" (2016), de Salomé Lamas; "Zama" (2017), da argentina Lucrecia Martel; e "9 dedos" (2017), do francês F. J. Ossang.

Uma última sugestão: a extraordinária entrevista que Catherine Camus, filha de Albert Camus - o grande autor desta pandemia -, deu esta semana ao diário espanhol "El País". É uma viagem pela vida dele e pela infância dela, ao tempo em que descobriu que o pai fora distinguido com o Nobel da Literatura. "Papá, também há um Nobel para acrobatas?"

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