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A expiação não pode esperar

A expiação não pode esperar

Para ultrapassar os traumas sofridos na infância às mãos do pai, a escritora Eve Ensler escreveu "Desculpa", uma longa e imaginária penitência do agressor com a qual os leitores se envolvem desde as primeiras linhas.

Por mais livros que escreva até ao fim dos seus dias, por mais convincentes ou até geniais que sejam as suas futuras criações, Eve Ensler sabe que será sempre, para a esmagadora maioria dos mortais, apenas a autora de "Os monólogos da vagina".

O texto dramatúrgico que escreveu em 1996 é, muito provavelmente, a mais célebre peça teatral deste derradeiro quarto de século. Representado em palcos de 140 países e traduzido para quase meia centena de idiomas, o livro valeu a independência financeira eterna desta norte-americana de 67 anos, mas ofuscou inevitavelmente todas as suas criações posteriores.

O que, todavia, não a tem impedido de continuar a ser uma firme ativista dos direitos das mulheres, denunciando os crimes de vária ordem de que continuam a ser vítimas em todo o Mundo. O movimento V-Day, que criou em 1998, tem angariado largas somas destinadas a esbater os preconceitos e as perseguições contra o sexo feminino.

É por esse prisma que devemos ler o seu mais recente livro a ser publicado em Portugal, "Desculpa". Se a temática dos abusos sexuais começa a estar justamente representada na literatura, poucos autores concretizaram uma abordagem tão franca como a que Ensler levou a cabo nesta obra.

Vítima desses abusos por parte do pai ao longo de toda a infância, a dramaturga nova-iorquina expõe o caso nas páginas do livro, mas fá-lo sob um ângulo tão inesperado quanto eficaz: quem narra o sucedido é o seu defunto pai, obrigado a confessar-se e a rememorar a cadeia de episódios que o levariam a perpetrar de forma continuada os crimes.

Se durante toda a sua vida Eve lutou contra esses traumas, procurando inutilmente encontrar os motivos pelos quais o seu pai cometeu atos tão hediondos contra a sua própria filha, a escrita de "Desculpa" revelou-se, no fim de contas, um exercício introspetivo pertinente. Ao procurar colocar-se na mente do progenitor, confere-lhe uma humanidade de que ele nunca deu mostras, tendo-se sempre recusada a pedir desculpas.

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Nesta expiação vinda do além, o pai revela-se afinal um ser muito distante da força e brutalidade exibidas em vida, atributos destinados apenas a intimidar a filha. Inseguro e frágil, ele demonstra ser alguém a roçar o patético e indigno do mais leve afeto.

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