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A herança de José Afonso na nova geração

A herança de José Afonso na nova geração

Desapareceu em 1987 uma das consciências do século XX português. Músicos contemporâneos falam sobre o legado.

Calou-se há 35 anos a voz da Revolução. Não só a do 25 de Abril, que teve como segunda senha de ativação "Grândola, vila morena", mas também a da música popular portuguesa, que nela encontrou o principal condutor na via para a modernidade. José Afonso tombou a 23 de fevereiro de 1987, aos 57 anos, no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, vítima de esclerose lateral amiotrófica. Foi músico e cidadão comprometido até ao fim, lançando o seu último disco, "Galinhas do mato", em 1985, e apoiando a candidatura presidencial de Maria Lourdes Pintasilgo em 1986. Recusou a Ordem da Liberdade, atribuída pelo presidente Ramalho Eanes, em 1983, ano em que foi visto pela última vez em palco, nos Coliseus de Lisboa e Porto. Deixou saudades, descendentes, estudiosos. Deixou herança incalculável na música e no espírito.

"Não havia desequilíbrio entre o músico e o homem de intervenção. Se não se tivesse envolvido na política, deixaria na mesma uma obra extraordinária. E é alguém que pode ser apreciado mesmo por quem não partilha das suas ideias", diz Capicua, a rapper que cresceu a ouvir José Afonso e que julgava que "A formiga no carreiro" e outros temas se destinavam a ela enquanto criança. Ficou surpreendida quando o pai lhe explicou, mais tarde, que muitas das letras eram "códigos para driblar a censura" e teve uma epifania. "Abriu-se um portal: percebi que as canções podiam ser formas de passar mensagens e que a aliança entre a música e a palavra era um superpoder." Capicua não fez versões de temas de José Afonso, mas utilizou samplagens da sua voz em vários temas: "Qualquer pesquisa sobre a música tradicional se cruza com o Zeca e creio que será sempre assim: num sample, numa releitura ou num resgate há de continuar viva a sua influência."

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