Música

A juventude eterna dos New Order em Paredes de Coura

A juventude eterna dos New Order em Paredes de Coura

Britânicos abriram com Richard Wagner e fecharam com Ian Curtis. De um lado ao outro, sobra mais um concerto histórico do festival minhoto.

A imagem de Ian Curtis estampada no fundo do palco de Paredes de Coura durante o encore em que os New Order interpretaram "Love will tear us apart" transmitia duas mensagens conflituantes. Por um lado, celebrava-se o génio do vocalista que se enforcou aos 23 anos após escutar o álbum de Iggy Pop "The idiot" e assistir ao filme de Werner Herzog "Stroszek". Um rosto jovem, que nunca verá as marcas do tempo infiltrarem-se na pele e que remetia os seus antigos companheiros de banda para o inevitável reconhecimento de que o tempo não lhes perdoara a eles.

Mas a lembrança de Ian Curtis e do som dos Joy Division, que atravessou todo o espetáculo magnífico dos New Order - não só no encore, onde se escutou ainda "Atmosphere", mas também na primeira parte do concerto, onde houve atualizações subtis de "She"s lost control" e "Transmission" - falava também da juventude que Bernard Sumners, Stephen Morris e, até 2007, Peter Hook, conseguiram criar a partir das cinzas dos eternos Joy Division. Porque os autores de "Closer" renasceram após a tragédia e começaram a desenhar o futuro.

Um futuro que talvez nem sequer tenha chegado, tão urgentes continuam a soar aqueles primeiros encontros entre a canção e a faixa de dança, que temas como "Blue monday", "True faith" ou "Waiting for the siren´s call" apresentaram ao mundo a partir de Madchester. E que os temas mais recentes de "Music complete", espalhados por todo o espetáculo desta quinta-feira, continuam incansavelmente a reinventar.

Claro que a encosta reagiu a tudo isto - dançando, gritando, expressando a quem estava à volta a sua incontida alegria e admiração por aqueles homens de rosto marcado pelo tempo, mas que continuam a produzir juventude naquilo que fazem.

"Flower power" do século XXI

Também os Khruangbin, que atuaram à luz do crepúsculo no anfiteatro de Coura, vogam entre o passado e a projeção do futuro. Naturais do Texas, Laura Lee (penteado à Cleópatra e vestido florido), Mark Speer (penteado à Cleópatra e pelos no peito) e Donald "DJ" Johnson (apenas um baterista) interessam-se por coisas tão exóticas como o funk tailandês dos anos 1960 ou sonoridades obscuras do Irão e Afeganistão.

Interessam-se também pelo "flower power" e pelo psicadelismo. Mas servem algo mais próximo de um "muzak" para acompanhar o tilintar de cubos de gelo num daiquiri.

Poderão chamar-lhe música inócua, que não atrapalha qualquer outra atividade, mas há algo de profundamente amável naquilo que fazem, naqueles túneis que se estendem pelo dia fora, naquela perceção de que a música já não pertence a épocas e geografias - é património vivo para todos os criadores.

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