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A liberdade está a passar pelo novo livro de Sérgio Godinho

A liberdade está a passar pelo novo livro de Sérgio Godinho

É a partir do diálogo entre a poesia e a fotografia que Sérgio Godinho concebeu o seu novo livro, "Palavras são imagens são palavras", uma manifestação artística em prol da liberdade em tempos de restrições e constrangimentos vários.

Há uma estirpe de artistas e autores que não resume o ato da criação ao momento exato em que se senta para compor ou escrever. Vivem em estado de alerta criativo permanente e conseguem detetar com clarividência no quotidiano sinais ou elementos que transcendem em muito essa realidade anódina.

Tudo pode inspirá-los, afinal, para um olhar alternativo sobre uma realidade que, na sua visão multiforme, nunca deixa de ser surpreendente e plena.

Desse lote faz parte seguramente Sérgio Godinho, cujo percurso autoral de meio século já o conduziu por caminhos tão diversos que o fez ganhar o apodo de "homem dos sete ofícios".

Na escrita como na música, essa busca traduz-se na recusa do óbvio, como o seu novo livro "Palavras são imagens são palavras" nos indica de forma vigorosa.

Do diálogo permanente entre fotografias e poemas que marca o livro, nasce uma espécie de categoria alternativa, súmula feliz desse cruzamento que, acima de tudo, apela a uma realidade distinta, embora avessa a definições.

Nesse inventário avulso de objetos, sentimentos ou estados de espírito fugazes, a palavra de ordem é mesmo a liberdade, o que não deixa de prefigurar uma curiosa declaração de princípios, porque boa parte das criações reunidas neste livro tiveram a sua origem em períodos de confinamento ou de restrições várias de circulação.

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Seja a lombada de um livro que nos fita de forma enigmática a partir da prateleira da biblioteca, a palma da mão com o seu feixe de linhas, pregas e rugas ou até a paisagem furtiva captada a partir de um comboio em movimento, o desejo do autor em cada um destes inquisitivos "flashes" é sempre o da eternização do instante.

A reflexão que é aqui feita pode passar também por uma memória que os anos tenderiam naturalmente a esbater, não fosse dar-se o caso de a saudade continuar a reclamar essa ausência, como acontece com o texto e a fotografia em que recorda Bernardo Sassetti, amigo e cúmplice de vários projetos.

Nostalgias episódicas à parte, o que subjaz da grande maioria destes poemas visuais ou fotografias poéticas é a "efémera felicidade" de quem nunca se cansa de estar enamorado pelo real, convicto como está de que "tudo é relativo / em absoluto / tudo é relativo".

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