Literatura

A misteriosa Clarice Lispector nasceu há 100 anos

A misteriosa Clarice Lispector nasceu há 100 anos

Há cem anos nascia Clarice Lispector, referência inescapável da literatura brasileira da segunda metade do século XX, cujos livros continuam a chegar até novos leitores. Nesta quinta-feira, o Cinema Trindade exibe "A hora da estrela", adaptação da sua obra mais célebre.

Misteriosa no nascimento (ocorrido na improvável Ucrânia), Clarice Lispector manteve essa áurea até ao fim, por mais numerosa que fosse a legião de leitores. Um estado quase natural em quem, embora achasse que amar os outros fosse a única salvação possível, via a solidão como uma condição inextricável da condição humana.

Não espanta, por isso, que uma das biografias sobre a escritora tenha o título "Eu sou uma pergunta", aludindo à permanente interrogação que atravessa a sua obra.

Nada no percurso inicial de Clarice Lispector parecia fadado para a imortalidade literária. Nascida no seio de uma família ucraniana humilde, chegou ao Brasil quando tinha dois anos. A morte da mãe, quando tinha apenas dez anos, foi o primeiro golpe que sofreu. O já evidente fascínio pelos livros acentuou-se e levou-a a criar um espaço mental próprio, do qual a escrita era o principal artífice.

O estudo de Direito foi interrompido quando tinha 20 anos para dedicar-se ao jornalismo, integrando a redação do "Diário de Campinas". Mas a data que urge fixar é mesmo a de 1942, o ano em que publicou o seu primeiro livro, "Perto do coração selvagem", a que se dedicou desde os 19.

As reações foram entusiásticas no meio literário e valeram-lhe mesmo comparações com nomes como Virginia Woolf ou Marcel Proust, que renegaria, todavia, com vigor, ao afirmar que nunca tinha lido qualquer livro desses autores.
O casamento no ano seguinte com um diplomata, que implicou a mudança para Belém do Pará, foi a primeira das razões que contribuíram para que o seu reconhecimento pleno tivesse que esperar ainda vários anos. Quando o seu segundo livro, "O lustre", é publicado, já está a viver em Nápoles. Meses antes, passou por Lisboa, onde permaneceu durante dez dias e conheceu figuras como João Gaspar Simões, Maria Archer e Natércia Freire, de quem viria a tornar-se grande amiga.

O nascimento do primeiro filho e a distância face ao seu país ajudam a explicar o abrandamento da sua produção, entrecortado pela publicação de "A noite" em 1958. À jornada europeia durante oito anos segue-se uma estada semelhante nos Estados Unidos. É nesse país que escreve "A maçã no escuro", a perturbadora história de um homem em fuga de si próprio.

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Glória póstuma

O regresso ao Brasil acontece no final da década de 1950, provocado pela separação com o marido. Farta das constantes viagens, das influências negativas dessa instabilidade na educação dos seus dois filhos e até da constante desvalorização da carreira literária, retorna com o objetivo de impulsionar a sua escrita. Os planos não correm logo como o pretendido e depende unicamente de textos em jornais para assegurar o sustento.

Em 1966, escapa da morte, depois de um incêndio causado por um cigarro aceso no quarto onde dormia. O incidente deixa marcas para além do susto: os ferimentos não obrigaram por pouco à amputação da mão direita.

Assoberbada com o cumprimento de prazos para os vários periódicos nos quais colaborava, pouca acrescenta à sua criação literária nessa década, mas os dois romances que publica - "A paixão segundo G.H." (1964) e "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres" (1969) - estão entre os mais significativos da sua bibliografia, confirmando a maturidade plena do seu estilo, já então assente em três marcas fundamentais, segundo o crítico literário Alfredo Bosi: "o uso intensivo da metáfora insólita, a entrega ao fluxo de consciência e a rutura com o enredo factual".

A década de 1970 foi, de longe, a mais produtiva. Além de dois romances ("Água viva" e "Um sopro de vida", este já publicado postumamente), escreve a novela "A hora da estrela", cinco livros de contos e três obras para os mais novos, uma paixão descoberta de forma tardia mas a que se dedicou com empenho máximo na última década.

A fluência de sete idiomas permitiu-lhe ainda dedicar-se à tradução com grande frequência. De Jorge Luis Borges a Agatha Christie, de Jonathan Swift a Jules Verne, traduziu 35 obras, incluindo clássicos da literatura universal.

Nos derradeiros anos de vida, o consenso em redor de si (mais da sua figura do que dos seus livros, valha a verdade) alarga-se mas sem nunca a tornar uma autora verdadeiramente popular. O mais próximo desse estatuto só seria alcançado a partir da década de 1980, já depois da morte, ocorrida em 1977. A publicação de várias obras inéditas, como recolhas de crónicas, e sobretudo as crescentes traduções (mais de 200, relativas a 30 idiomas) diminuíram a resistência que, anos a fio, os seus livros encontraram pelo facto de o seu tom estar nos antípodas da efervescência que nos habituámos a associar às criações brasileiras.

"Género não me pega mais"

Apesar de ter estendido a produção literária por romances, contos, crónicas ou livros infantis (além das abundantes cartas), Clarice Lispector recusou sempre aprisionar-se num só estilo literário. "Género não me pega mais", disparou, resumindo numa curta frase todos os seus esforços para romper as definições de texto.

A subversão de géneros encontrou correspondência na construção de uma linguagem facilmente identificável. Tal como a particular noção de tempo que encontramos nos seus livros, que fazia com que o início e o final da história nem sempre fossem claros. O enredo aparecia muitas vezes diluído na criação de um estilo a roçar o experimental, que tornava possível o uso de vírgulas no início das frases ou os dois pontos na conclusão das mesmas. O ato de narrar uma história era visto assim como uma impossibilidade, já que o autor narra-se sempre a si mesmo, em última instância.

Evocação passa pelo Porto

O centenário do nascimento da autora de "Perto do coração selvagem" tem sido amplamente assinalado no Brasil, através de reedições mas não só. Além de duas adaptações cinematográficas em curso ("A paixão segundo G.H." de Luiz Fernando Carvalho, e "Uma aprendizagem ou livro dos prazeres" de Marcela Lordy), a sua vertente epistolográfica foi reunida no volume "Todas as cartas", um impressionante tomo de 864 páginas lançado pela Rocco.

A mesma editora criou uma página web especial, com vídeos, podcasts e outros conteúdos. No plano académico, duas universidades de Rio Grande do Sul, a Federal e a Católica, levaram por diante congressos cujos registos estão disponíveis online.

Em Portugal, nenhuma das iniciativas já realizadas ou por realizar se aproxima, no que toca a ambição, da exposição bibliográfica realizada há sete anos na Gulbenkian, intitulada "A hora da estrela".

Hoje, no Porto, o Cinema Trindade associa-se à efeméride através da exibição de "A hora da estrela", filme que Suzana Amaral realizou em 1985, oito anos depois da morte de Lispector. Premiada com o Urso de Prata no Festival de Berlim, a película conta com Fernanda Montenegro num dos principais papéis.

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