Banda Desenhada

A revolta das árvores

Jeffe Lemire prova que a maneira como narra é mais importante do que a história

Jeff Lemire, atualmente um dos nomes de referência dos comics norte-americanos, tem vindo a provar repetidamente que a forma como narra é mais importante do que a história em si. Por isso, tal como acontece neste livro, mesmo quando há mais perguntas do que respostas e mais dúvidas do que explicações, o leitor fica confortado e satisfeito por uma leitura que surpreende, cativa e, mais uma vez, supera as expectativas.

Tal como em "Sweeth Tooth", também em "Family Tree" a premissa base é original. Se naquela história o ponto de partida era o nascimento de crianças com malformações animais, agora há seres humanos que experimentam uma singular transformação. Mas, tendo ambas em comum a evidente preocupação ecológica, não é esse o cerne da narrativa, que aponta à forma como o ser humano convive mal com a diferença.

A história, passada nos Estados Unidos, num futuro indefinido mas próximo, tem como protagonistas os membros de uma família disfuncional que o tempo e a vida afastou. No entanto, quando alguns deles começam a apresentar os mesmos sintomas, a reaproximação de todos vai fazer surgir sentimentos que desconheciam, impondo ao leitor o duplo sentido do título original, que a edição portuguesa da G. Floy entendeu manter, e dar-lhes a capacidade de sobreviverem num ambiente hostil, em que são perseguidos por uma seita que combate a diferença.

Thriller ecológico de revolta da natureza contra o homem, assente numa perseguição implacável, "Family Tree" distingue-se pelas expectativas que o conceito suscita, o ritmo narrativo imposto, os saltos recorrentes entre diferentes épocas, as sucessivas surpresas, a adrenalina provocada pela perseguições e confrontos e o elevado nível a que chegam as emoções. Para isso contribui a planificação viva e diversificada, a montagem das diferentes cenas, o movimento de câmara constante que proporciona enquadramentos diferenciados e a predominância das imagens sobre o texto.

Ao lado do argumentista, surgem três desenhadores - Phil Hester, Eric Gaspur e Ryan Cody - cujo traço feio, duro e agreste, curiosamente próximo do estilo de Lemire, se revela ideal para retratar o lado mais violento do relato e até o fenómeno em que assenta.

Family Tree
Jeff Lemire, Phil Hester, Eric Gaspur e Ryan Cody
GFloy
292 p., 32,00 €

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