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Artes performativas

A tragicomédia segue-se em segundos

A tragicomédia segue-se em segundos

O encenador António Lago estreia esta sexta-feira, às 19.30 horas, no Teatro do Campo Alegre, no Porto, o seu novo espetáculo "Beetje bij beetje".

António Lago foi o criador do Teatro Só, filho da cena teatral portuense independente, dos anos 1990. É importante referi-lo à cabeça porque há uma estética e uma preocupação, a montante, comum a vários dos artistas que se juntaram nesse bolo espaciotemporal. A jusante a linguagem dos produtos teatrais oferecidos são completamente distintos. Até porque António Lago se formou na École de Théatre Jacques Lecoq, o Santo Graal do Teatro Físico, o que marcaria indelevelmente o seu percurso.

"Beetje bij beetje", nome que escolheu para o projeto é uma expressão holandesa que significa "Pouco a pouco", mas é também um marcado escárnio com "o desejo de internacionalização e da fantasia de se querer ser estrangeiro", aliada à sonoridade da expressão.

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António Lago conta ao JN que queria falar "sobre alterações climáticas, o afastamento do Homem da Natureza, género e deslocalizados". Para tal, o texto utilizado na obra é da escritora portuguesa Isabela Figueiredo.

Toda esta visão catastrofista veio do seu tormento ao "crescer com a Guerra Fria e com a possibilidade de uma morte iminente". Algo potenciado por um acidente que teve na infância, numa igreja em Vila Verde, onde os seus entretenimentos eram "o circo e a missa". Apesar de a história ser trágica, o discurso é cómico, assim como o espetáculo de "pós-cabaret". Desarmando, Lago explica que "estamos a viver tempos tão difíceis que não vale a pena contar uma história negra de uma forma negra. Ou seja carregar na farinheira".

Na verdade é como se colidissem, numa produção reduzida, o filme "Amantes Passageiros" de Pedro Almodóvar, com a "Ópera dos Trés Vinténs", de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Neste pós-cabaret, num alegado voo do Porto a Bragança, estão quatro passageiras (Ana Madureira, Ana Rita Xavier, Maurícia Barreira Neves e Susana Chiocca, às quais se junta Vinicius Massucato), profundamente inexpressivas. Mas as suas dancinhas (altamente precisas), joguinhos de pés e sincronia tornam as cenas hilariantes, mas isentas de histeria.

A absurdidade toma conta da cena, mas sem que nada seja forçado. Não há grandes efeitos, as intérpretes estão vestidas de preto e é tudo bastante minimal. Mas é nesse jogo de subjetividade que a tragicomédia se instala. Estamos todos a morrer, "Beetje bij beetje" mas não é isso que nos vai impedir de rir.

O espetáculo tem uma récita no sábado, no mesmo horário.

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