Pandemia de 1918

A última noite de Amadeo Souza-Cardoso sobre a Terra foi a tremer

A última noite de Amadeo Souza-Cardoso sobre a Terra foi a tremer

Pintor modernista morreu em Espinho há 102 anos em agonia respiratória com o vírus da gripe espanhola. Este ano vai ser editado novo livro com 250 cartas inéditas e vai estrear o filme "Amadeo". O astronómico artista é um diamante que continuamos a polir.

Aflito, a suar cansaços e sufocação, muito pálido de pele, a cabeça a detonar, os lábios a azular, Amadeo, que ardia em febre e sentia arrepiado por todo o corpo o latejar da sua pulsação, como se o coração escalasse até à cabeça a bater, tossiu e novamente viu-se sangue vermelho-escuro e espesso nas suas mãos. Estava na cama do quarto do mirante, onde pintava, na casa de férias da família Souza-Cardoso, na Avenida Serpa Pinto, hoje Avenida 8, em Espinho, perto da brisa do mar. Mas o quarto penumbrava na doença, ele quase não conseguia respirar - dois dias antes, foi-lhe descoberta uma broncopneumonia gripal severa - e quis chamar um padre. E o padre veio ao alvorecer.

"Foi o derradeiro pedido de Amadeo de Souza-Cardoso, receber os últimos sacramentos", conta ao JN Luís Damásio, historiador e autor do livro-tese "Amadeo, vida, obra", lançado em 2018 nos 100 anos da morte do nosso maior pintor modernista. O padre veio, o dia nascia, rezou-se a santa unção, e os pulmões de Amadeo, a demolirem-se por dentro, amortalhados e sugados, implodiram e ele morreu às 9 horas da manhã de 25 de outubro de 1918. Tinha 30 anos, morreu a 20 dias de completar 31.

"Morreu de gripe espanhola, a gripe do influenzavirus H1N1 que foi a primeira pandemia dessa estirpe no século XX [a segunda foi em 2009] que matou entre 50 a 100 milhões de pessoas entre 1918, no fim da I Guerra, quando o vírus começou a espalhar-se com o regresso dos soldados às suas casas, até ao final de 1920", diz Luís Damásio. "Em Portugal, morreram entre 60 e 120 mil pessoas, muitos jovens como Amadeo ou os dois pastorinhos de Fátima, Francisco, com 11 anos, e Jacinta, que tinha 10. Foi fatídico, essa pandemia, que ficou conhecida como "a pneumónica", atacou e matou muito mais os jovens do que idosos, foi ao contrário do que é agora com o coronavírus e a doença respiratória covid-19". Continua o historiador: "É uma época fascinante nos relatos do Dr. Ricardo Jorge, o médico do Porto que lançou então o conceito de saúde pública, e há muitos paralelos com a pandemia mundial de hoje: o pânico geral, o isolamento, o distanciamento social, as tentativas de higienização, foi tudo muito parecido com o que vivemos agora, a diferença maior é que hoje, mais de 100 anos depois, dispomos de mais e melhor informação", anota o historiador.

Caixão seguiu lacrado para Manhufe
Amadeo fez parte da jovem geração que foi duplamente sacrificada: uns morreram em batalha - Amadeo não: quando foi chamado ao serviço militar da pátria, em 1916, quando Portugal entra na Guerra por pressão dos aliados ingleses, fez a inspeção no Quartel de Vila Real mas foi dado como inapto por falta geral de robustez -, outros caíram pela pneumónica, espantados com a velocidade e a impetuosidade viral.

O pintor foi levado na segunda vaga da infeção mundial, a mais gravosa, que durou de setembro a novembro de 1918 e que nesse período, espalhando-se a uma velocidade alucinante, matou cerca de 90% das pessoas afetadas pela pandemia - em Espinho a média foi terrível, morreu pelo menos um jovem por dia no negro mês de outubro, incluindo Amadeo.

"O funeral do nosso amado Amadeo foi muito restrito e silencioso, nem uma dúzia de pessoas da família, e o caixão, que já nos chegou já lacrado de Espinho para evitar infeções e disseminação, foi trasladado para o jazigo da nossa família em Mancelos [freguesia de Amarante]", diz agora António Sousa Cardoso, sobrinho-bisneto do pintor. "Na casa de Espinho, juntamente com Amadeo nesse mês de Outubro, encontravam-se muitos familiares: os pais dele, Emília Cândida e José Emygdio, a sua mulher Lúcie e as irmãs, Maria da Graça e Helena; também coabitavam essa mesma casa de Espinho empregadas domésticas que apoiavam nos diversos serviços da lide da casa".

Com Amadeo, foram-se outros familiares: "Não perdemos só o Amadeo; morreu também a irmã dele Maria da Graça, a avó, um tio e um primo e ainda uma empregada que era como família para nós", completa o sobrinho-bisneto António Sousa Cardoso.

A morte no cume do criador
Ceifado no pico artístico dos seus poderes, mais conhecido então no mundo do que por cá, Amadeo de Souza-Cardoso fez-se artista maior em Paris, onde chegou com 20 anos de idade e onde morou de 1907 a 1914, passando por várias casas e ateliers, mormente Montparnasse, o fervente bairro artístico por onde se entranhava o vórtice da revolução das artes que no início do século XX nos deu, como numa sísmica e verdadeira rebelião, correntes de pintura que marcaram o mundo como ferros em brasa desde então: impressionismo, cubismo, abstracionismo, futurismo, modernismo. A pintura, que explodia em revolvimento e ebulição em todas as direções, não terá sido alheia à convivência com o cinema, que na altura já espantava Paris com a sua projeção - o cinematógrafo de Thomas Edison já tinha sido inventado em 1891 e no final de 1895 os irmãos Louis e Auguste Lumière realizaram a primeira projeção cinematográfica no Salão Indiano do Grand Café do Boulevard des Capucines, pasmando filas e quilómetros de novos espectadores.

Amadeo, devorador de todas as novidades, assume-se como uma nova síntese de tudo o que na pintura é moderno, isto é, novo, rompendo a fixidez do naturalismo com cores a gritar, com movimento ou impressão de movimento, novos enquadramentos incomuns, talhando nos seus quadros as suas emotivas e excitadas perceções pessoais.

"Apresentar Amadeo Souza-Cardoso na sua pluralidade", retorna o historiador Luís Damásio, "é, com toda a justiça, equipará-lo com os maiores do seu tempo e ele conheceu pessoalmente muitos deles: Picasso (de quem curiosamente não gostava, era uma questão de feitios), Braque, Kandinsky, Chagal, Mondigliani, Brancusi, Delaunay, Matisse e muitos mais. Amadeo é o único artista português a atingir esse patamar".

Com a primeira exposição realizada em 1911, no seu atelier da Rue Ernest Cresson, n.º 20, quando tinha somente 24 anos, exibem-se os seus quadros vibrantes e esculturas longilíneas de Mondigliani, que conhecera e de quem se fizera amigo e que se chamava Amedeo. Mas é numa exposição na América, a rompante "International exhibition of modern art", o célebre Armory Show de Nova Iorque, em 1913, que o mostra ao mundo, exibindo ao lado de Picasso, Van Gogh, Monet, Manet, Cézanne, Renoir, Brancusi, Zak ou Gaugin.

"Foi extraordinário, foi como um sismo", conta o apaixonado historiador Luís Damásio, "Amadeo levou à América oito quadros, incluindo um dos seus mais renomados, o maravilhoso "Os galgos", e vendeu sete, foi dos artistas que mais vendeu". A exposição nova-iorquina seguiu depois para Chicago e Boston, originando igual ruído escandaloso.

Mais tarde, já em 1916, quando já havia voltado a Portugal e a Manhufe, e teve uma fase de produção febril, dá-se a conhecer à sociedade portuense com a exposição no Salão de Festas do Jardim Passos Manuel, epicentro cultural e de lazer da burguesia, no espaço onde hoje se ergue o Coliseu do Porto. A mostra intitulada "Abstracionismo" causa vários arrebatamentos emocionais e escândalo -mas é muito mal recebida: pasmados pela gritante novidade que não compreendiam, cuspiram-lhe em vários quadros e Amadeo chegou mesmo a ser socado, tendo que receber tratamento no Hospital da Misericórdia, hoje o Hospital de Santo António, na baixa portuense. A exposição seguinte, no mesmo ano, na Liga Naval de Lisboa terá corrido ligeiramente melhor, porque o clube era privado e o ambiente, também mais polido, não se descontrolou - e ninguém cuspiu em ninguém.

Vem aí livro de cartas inéditas e um filme
Com cerca de três centenas de quadros espalhados pelo Museu de Amarante, que foi o primeiro a expô-lo no século XX, na década de 50, pela Fundação Gulbenkian, e por coleções privadas em Nova Iorque, Chicago, Berlim e sobretudo Paris, Amadeo, que pintou febrilmente até à morte, é, ainda hoje, um diamante que estamos a polir.
Criador do seu próprio cosmos - "tenho mais fases do que a lua", disse o pintor de "O salto do coelho", os seus últimos meses foram atravessados pelo desejo de agradar à religiosidade da mãe. E foi aí, já em Espinho onde em outubro de 1918 iria morrer, foi aí que pintou o "Óleo de Cristo" e as célebres aguarelas modernistas "Sagrado coração de Jesus" e "A estigmatizarão de S. Francisco", que a mãe colocou na sua cómoda já depois de o filho falecer.

Três semanas antes de morrer, Amadeo escreveu de Espinho para Manhufe uma carta ao irmão António. A missiva traz preocupações. Diz assim: "Algumas noticias nossas e são as seguintes: a Gracita continua no mesmo estado, não tem piorado, mas também as melhoras não são ainda de dar descanso. Na noite passada, o termómetro acusou altíssima temperatura. Hoje até à hora que escrevo tem 39, 39,5 de temperatura. (...) A Lúcia [Lúcie, a mulher] ontem não teve descanso, mas hoje lá caiu na cama e lá está com febre e os característicos da gripe. A D.ª Judith não tem descanso de noite e de dia e estamos a ver quando ela cai também. A Helena mal se arrasta o que tem valido são as criadas da Alice". E depois fala de si, ainda sem gravidade: "Ando constipadíssimo, de vez em quando sinto grande opressão no peito, tenho-me atirado ao Vinho do Porto por prevenção".


A carta inédita vai em breve ser revelada a todos num livro do historiador Luís Damásio que junta 250 cartas e postais de Amadeo, a editar no Outono pela "Ponto de Fuga", com um belo título como declaração de amor: "Cair no coração de uma flor", frase retirada de uma carta inflamada à sua mulher.

Ainda este ano estreia também "Amadeo", novo filme de Vicente Alves do Ó, cineasta autor de biopics sobre Florbela Espanca e Al Berto. A ficção histórica vai focar três fases da vida sumarenta do modernista: 1911 em Paris, 1916 no Porto (e na infame exposição do Passos Manuel) e 1918 em Espinho, onde penumbrou. O ator Rafael Morais encarnará Amadeo, Eunice Muñoz fará de sua avó, Lúcia Moniz é a sua irmã Laura, Manuela Couto a mãe e Rogério Samora o pai.

Como um cometa que atravessou a terra, sensacional, lustroso e aparatoso, variegado, versicolor, Amadeo Souza-Cardoso foi um artista genuinamente ímpar, isto é, que se fez a si mesmo, que não procedeu de nada e de ninguém - gravitava só -, nem sequer de Deus.