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Abel Ferrara: "Como budista sinto-me mais perto de Cristo"

Abel Ferrara: "Como budista sinto-me mais perto de Cristo"

Realizador norte-americano Abel Ferrara apresentou "Padre Pio" no Nimas, no âmbito do Lisbon & Sintra Film Festival, com David Cronenberg na sala. Um serão para recordar por muitos anos.

Noite memorável em Lisboa, perto do final da edição deste ano do Lisbon & Sintra Film Festival. Abel Ferrara esteve no Cinema Nimas a apresentar o seu último filme, "Padre Pio", conversou com o público no final durante quase uma hora e na audiência estava David Cronenberg, que decidiu ficar mais alguns dias no nosso país depois de também apresentar no festival "Crimes do Futuro", em estreia em todo o país na próxima quinta-feira. No final, emocionante encontro entre os dois grandes cineastas.

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"Padre Pio" passa-se numa pequena localidade da Apúlia, em Itália, entre o regresso dos soldados da Primeira Grande Guerra e as primeiras eleições livres, realizadas em 1920, que no local deram a vitória aos comunistas, impedidos no entanto de ocupar o município, num confronto que acabou com uma dúzia de mortos. Nessa localidade, encontrava-se já o Padre Pio, canonizado em 2002.

No papel central vemos Shia Labeouf, que se converteu ao catolicismo durante a rodagem do filme. Ferrara explica o que aconteceu. "O Shia fez o filme por puro amor. Nem o conhecia, falei com ele por zoom. Soube que ele era o tipo certo, tenho esse instinto com os atores", disse. "Pegou no carro, conduziu duas horas até a um mosteiro na Califórnia e parou no parque de estacionamento. Não sabiam quem era aquele tipo, estiveram quase a chamar a polícia. Disse-lhes que ia interpretar o Padre Pio, deram-lhe um hábito e deixaram-no entrar. Passou lá três meses. O tipo que tinha feito o Transformers."

O realizador explicou o que o levou a fazer o filme. "Não me interessa o Pio como santo, mas como um homem em conflito. Foi esse o filme que eu quis fazer. Nós estivemos nos locais onde ele viveu. O Pio nunca tinha deixado a casa da mãe. E teve de sair da bela Campania, para aquele buraco no meio de lado nenhum. Era um local assustador, para um rapaz como ele. Chegou mesmo a pôr em causa a sua Fé. Está tudo ans cartas dele. Não era um santo, longe disso, era um pecador. O que me interessa é ele ter construído lá um hospital, não são os milagres. Eu sou budista, não acredito em milagres."

A conversa com o público começou então a ser mais pessoal. "Sou budista, praticante. Mas fui criado como católico apostólico romano", confessou. "Há dez anos deixei o álcool e as drogas. Tomei-as desde os 16 anos de idade até ter 61. Numa base diária. Billie Holiday e Burroughs eram os meus heróis. Queria ser como o Sam Peckinpah, ou como Fassbinder. Mas era um escravo. Já era budista cinco anos antes. Mas não se pode ser budista e drogado, e pensar que se está a meditar."

Ferrara explicou como foi capaz de se salvar. "Passei 40 dias em desintoxicação. Como Jesus no deserto. Quando fiquei sóbrio, passei a dormir de noite. Como um ser humano normal. Dormir em vez de desmaiar. Depois de passar 40 dias sem dormir sequer cinco minutos. Depois acordei, sentia-me tão bem que pensava que alguma coisas estava de errado comigo. E comecei a meditar. É esse o meu vício. Mais forte que as drogas ou o álcool."

O realizador abordou de seguida a figura de Cristo. "Agora começo a sentir uma ligação a Jesus, como rebelde, o lutador pela liberdade. Nascemos livres, devemos manter-nos livres. Mas eu não estava", admite. "Penso em Cristo como um homem. Como budista, não se fala na Criação, por isso não se fala no Criador. Como budista, respeito todas as outras religiões. O que se procura no budismo pode encontrar-se no catolicismo, se o praticarmos da forma correta. Na minha prática como budista, sinto-me mais perto de Cristo."

Um dos filmes anteriores de Ferrara chamava-se mesmo "Maria Madalena". O realizador recorda esse momento da sua vida. "Fomos a Jerusalém. Estive no local onde Jesus foi crucificado. Mas já estava afastado da Igreja. Era um drogado e um alcoólico, o que não ajuda muito a espiritualidade. Estava pedrado, a fazer um filme em Jerusalém, onde ele tinha sido crucificado. Mas à volta havia malta com t-shirts, os árabes estão-se nas tintas, os judeus estão-se nas tintas, Jesus não é apelativo para eles, só os católicos é que acreditam, malta a vender cassetes, parecia a Disneylândia."

Nova-iorquino a viver em Roma, Abel Ferrara abordou também essa sua aposta de vida. "Não ganho o suficiente para viver em Nova Iorque. A sério. Tinha de ganhar muito mais dinheiro do que ganho para conseguir ter a vida que tinha em Nova Iorque. Ficariam chocados de saber quanto dinheiro ganho como cineasta independente. E não consigo fazer os filmes que quero nos Estados Unidos. Faço filmes na Europa, porque aqui o que eu faço conta."

Regressado da Ucrânia, onde foi fazer um documentário, Ferrara terminou assim o encontro: "Estar aqui a discutir o filme com vocês é o contrário de pegar num tanque e matar pessoas. Vivemos para a vida ou vivemos para a morte? O cinema está do lado da vida."

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