Exposição Mapplethorpe

Administração de Serralves diz que zona de acesso restrito estava prevista

Administração de Serralves diz que zona de acesso restrito estava prevista

A administração da Fundação de Serralves garante que não mandou retirar nenhuma obra da exposição Mapplethorpe, e diz que todas foram escolhidas pelo curador da mostra, João Ribas, que, esta sexta-feira à noite, apresentou a demissão, abandonando o cargo de Diretor do Museu de Arte Contemporânea de Serralves,

"A exposição "Robert Mapplethorpe: Pictures" é composta por 159 obras do autor, todas elas escolhidas pelo curador desta apresentação. A Administração de Serralves não retirou nenhuma obra da exposição", garante o Conselho de Administração da Fundação. Inicialmente, estavam previstas serem mostradas 179 fotografias do polémico artista.

A administração esclarece ainda que, "dado o teor de várias das obras expostas e sendo Serralves uma instituição visitada anualmente por quase um milhão de pessoas de todas as origens, idades e nacionalidades, incluindo milhares de crianças e centenas de escolas, a Fundação considerou que o público visitante deveria ser alertado para esse efeito, de acordo com a legislação em vigor".

Mas esse aviso nunca esteve em causa e estava, aliás, anunciado pelo diretor do Museu enquanto procedimento normal. A polémica nasceu, sim, da criação de uma zona interdita a menores de 18 anos, decisão que a Fundação garante, hoje, que afinal estava prevista desde sempre. "Desde o início, a proposta da exposição foi apresentar as obras de cariz sexual explícito numa zona com acesso restrito", escreve a administração em comunicado.

O fotógrafo norte-americano notabilizou-se por explorar os limites da arte e do que é aceitável ser exposto publicamente, nomeadamente através do uso do corpo nu dos seus modelos e das suas compulsões sexuais, que retratou sem reservas e em movimento de provocação permanente de polémicas.

A informação hoje divulgada contraria João Ribas, que tinha garantido publicamente, há uma semana, que isso não iria acontecer. Mas a verdade é que a essa zona acabou por ser criada. No dia da inauguração em Serralves surgiu na exposição uma zona em que, para além de se alertar que ali se mostram obras que podem ferir os mais sensíveis, se avisa que a admissão "está reservada a maiores de 18 anos", uma limitação mais radical do que a que se anunciava à entrada do museu, onde um cartaz diz que "a admissão de menores de 18 anos está condicionada à companhia de um adulto".

Como o Jornal de Notícias escreve, este sábado, na edição impressa, João Ribas ter-se-á sentido desautorizado com a imposição da zona de limitação etária, e decidiu apresentar a sua demissão. O caso terá sido a gota de água que fez transbordar o copo de uma relação que, apurou o JN, estava a ficar extenuada. Ana Pinho, presidente da Fundação e João Ribas, diretor artístico do museu, nunca o declararam publicamente, mas havia tensões profissionais acumuladas entre os dois.

O JN está a tentar obter uma reação de João Ribas à posição pública da Fundação.

Restrição polémica

Os dois avisos criaram confusão entre os visitantes e a limitação levantou a dúvida: pode um museu restringir o acesso às obras que expõe?

A interdição não é, de todo, consensual, e originou várias críticas dos agentes artísticos, que concordam com a intenção que Ribas tinha declarado ao jornal "Público": "Um museu não pode dizer o que as pessoas podem ou não ver".

O artista Pedro Cabrita Reis, ouvido pelo JN, acha que não devia ter havido. Um museu é "um lugar de pensamento", diz. "Deverão ser os visitantes a decidir como viver o Museu e as exposições que nele visitam, e ajuizar das implicações éticas ou morais que decorrem das suas escolhas ante as obras que são dadas a ver e a fruir."

Também o fotógrafo Daniel Blaufuks, que iria fazer uma visita guiada pela exposição Mapplethorpe, se insurgiu contra a limitação. "Por considerar absolutamente inaceitável as noticiadas restrições na exposição de Robert Mapplethorpe, venho por este meio cancelar a visita guiada", escreveu Daniel Blaufuks no Facebook e no Instagram.

A mesma posição tem João Fernandes, antigo diretor do museu de Serralves, que, ao "Público" falou em "censura", fruto de um "puritanismo galopante". "O pai ou a mãe de um menor devem ter o direito de levar os filhos a qualquer exposição", afirmou.

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