Cultura

Adriana Calcanhotto: "Continuo achando que há excesso de música"

Adriana Calcanhotto: "Continuo achando que há excesso de música"

Adriana Calcanhotto inicia sexta-feira, na Culturgest, em Lisboa, a digressão "Olhos de onda", uma série de dez espetáculos a decorrer até ao próximo dia 27. A solo, com o violão, a brasileira meio gaúcha, meio carioca, vai tocar alguns dos seus temas preferidos. E promete surpresas.

O que é que o público pode esperar destes concertos?

Foi um convite da Culturgest para fazer um espetáculo, no âmbito das comemorações dos seus 20 anos, que precipitou o meu regresso ao violão depois da lesão que tive na mão [foi operada a um quisto no pulso]. São canções muito conhecidas, com as quais convivo há muitos anos, mas, com a retomada do violão, ficaram novas para mim.

E que canções são essas?

Essa é a parte engraçada de fazer um concerto a solo, porque, na altura, posso mudar de ideias, trocar de canção, atender um pedido. Mas sei que vou cantar "O outro", "Olhos de onda" - uma canção feita para esta digressão e que cita Lisboa -, "Esquadros", "Vambora", "Fico assim sem você". Algumas canções que sei que as pessoas esperam cantar, como "Maresia", "Inverno", "O nome da cidade", canções de que gosto.

É quase um "best of"?

Não tem essa intenção. O encadeamento é a relação com Portugal. Por isso é que tem tantas canções de mar. Tenho a ideia de que o mar nos aproxima mais do que nos separa; então, as canções marítimas também têm a ver com essa ligação. Não é um "best of" no sentido dos êxitos, são canções que têm mais a ver com essa minha relação com Portugal e com o mar: o mar literário, o mar físico, o mar português.

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Vai estar quase um mês em Portugal. De que é que mais gosta no país?

Não acharia bem atuar no Porto e em Lisboa e voltar para o Brasil, gosto de andar pelo país. Há cidades onde vou estar que não conheço - estou curiosíssima. E também tenho muitas lembranças maravilhosas, há lugares que adoro, como o Alentejo - onde não vou desta vez, mas vou voltar à Madeira e aos Açores. Estou muito animada. Gosto muito de conhecer, de descobrir lugares novos. As pessoas são tão calorosas. Portugal é um país pequeno com muita diversidade, as regiões são diferentes, os sotaques também, as vidas, as pessoas. É muito bom voltar a pôr o pé na estrada em Portugal.

Esteve cá há dois anos, a lançar o "Micróbio do samba". Esse micróbio continua a contaminá-la, não a vai abandonar?

Acho que não, nasci com ele. O projeto (disco e DVD) é demonstrar a aceitação disso. A canção que fiz depois - "Olhos de onda" - já não é um samba, é uma outra coisa que nem sei direito o que é; não sei se inaugura uma nova fase, espero que sim. É uma sensação muito feliz ter voltado a compor, no violão, depois de dois anos de impedimento. Estou tocando de uma maneira diferente, mas que não tem a ver com a mão, tem a ver com a vida, com este tempo que passou, em que não toquei, mas que está refletido na maneira de tocar.

Acaba de lançar o álbum "Partimpim tlês". Está a pensar continuar o projeto?

O projeto nasceu com a ideia de uma discografia e não um disco só. Fiz o "Tlês", mas não é possível fazer concertos porque tive uma banda toda junta tocando que não posso ter no palco. Eles tocaram parede de estúdio, fizeram muitos sons, criaram coisas que seria muito difícil transportar para um espetáculo. E o facto de eu poder voltar a tocar violão também está a empolgar-me muito. Acho que a Partimpim, agora, toma o rumo dela e eu tomo o meu porque não posso ficar à disposição dela dessa maneira. (risos).

A Adriana é mais micróbio do samba ou é Adriana Partimpim?

O problema é que sou as duas, sendo uma só. É uma demanda muito grande, coisa da intuição. Quando recebi o convite para fazer este espetáculo, abri mão de tudo e pedi à Partimpim para esperar um pouco, ir tomando o rumo dela, que agora vou tocar violão.

Disse, numa entrevista, que há música a mais no Mundo. Ainda pensa da mesma maneira? E ouve muita música no dia-a-dia?

Ouço menos e menos música, mas acho que é natural. Ouço as minhas colegas falarem de música, uma vez que trabalhamos com música. É como o pescador: quando sai do mar, ele não quer o mar, quer ficar longe. Então, o silêncio é muito mais importante. Continuo achando que há excesso de música, mas é mais interessante haver excesso do que falta.

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