Entrevista

"Ainda há muito por fazer pela democratização da ópera em Portugal"

"Ainda há muito por fazer pela democratização da ópera em Portugal"

A soprano Carla Caramujo é a figura central de "Orphée", obra de Philip Glass que criou a partir do filme homónimo de Jean Cocteau. O CCB estreia a ópera, interpretada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, na próxima quinta-feira.

Já deu voz a figuras emblemáticas do mundo da ópera como a Gilda de "Rigoletto" ou Violeta de "La Traviata". Na próxima quinta-feira e no sábado, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Carla Caramujo assume o papel de Princesa, figura central de "Orphée", peça em dois atos criada por Philip Glass a partir do filme homónimo do mestre do surrealismo Jean Cocteau, que vai ser interpretada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Para a soprano originária de Coimbra, trata-se de um regresso ao universo mitológico de Orfeu, dois anos e meio depois de ter sido a protagonista de uma outra adaptação de "Orphée" no Rio de Janeiro, igualmente dirigida por Felipe Hirsch, que mereceu elogios unânimes do público e da crítica.

A reincidência está longe de significar uma ilusão de controlo absoluto. "Cada espetáculo é único", realça Caramujo. Os meses consecutivos de preparação que antecedem uma estreia - dos cuidados vocais à alimentação rigorosa e descanso obrigatório - não invalidam o aparecimento de imponderáveis, até porque "a forma como nos sentimos num dia tem influência no desempenho em palco".

"Não há plano b"

Aos já habituais rigor e minúcia que coloca em cada novo projeto, a soprano deparou-se ainda com outras exigências em "Orphée". "É uma responsabilidade acrescida", diz a artista, referindo-se não só ao peso de lidar com o mito de Orfeu, mas também às fortes marcas autorais que rodeiam as obras de Cocteau e Glass.

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No plano performativo, o que se lhe pede não é tarefa de somenos, ao ter que assegurar com idêntico à vontade tanto o canto lírico como a interpretação teatral.

Para cúmulo, o uso obrigatório de máscara durante os ensaios veio exigir "o dobro da intensidade física", além da dificuldade de avaliar até a expressão facial dos colegas. Ainda assim, nada comparável com a incerteza diária de a produção vir a ter membros do elenco infetados com covid-19 e a dificuldade de substituí-los em cima da hora. "Nunca há um plano B absoluto. No meu caso, o papel longo e exigente da Princesa torna impossível a substituição", diz.

Ópera por todo o país

Duas décadas depois de ter trocado o curso de Química pelos estudos superiores de canto em Inglaterra, Carla Caramujo recorda ainda com nitidez "a dose de impulso gigantesca" que esteve na origem da decisão.

A viver no Porto desde maio do ano passado, a vencedora do Concurso Nacional de Canto Luísa Todi mantém intacta a vontade de prosseguir uma carreira internacional já reconhecida com prémios na Alemanha e Reino Unido ou atuações por toda a Europa e América do Sul. "Manter uma carreira a partir de Portugal obriga a um esforço suplementar", reconhece.

No último par de décadas, o ensino artístico "deu um salto gigante", constata, embora o canto em particular continue a apresentar várias lacunas, porque "as nossas escolas ainda não oferecem tudo o que é necessário para a formação".

Entre os objetivos por cumprir está a vontade de ver a ópera a circular pelo país. Carla Caramujo aponta o fraco empenho das estruturas em levar os espetáculos em digressões, o que permitiria diluir o elevado investimento feito: "Ainda há muito a fazer quanto à democratização. Espero que os responsáveis da cultura comecem finalmente a dar-lhe a atenção devida".

Orphée", de Philip Glass, ópera de câmara em dois atos

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Quinta-feira, 27 de janeiro, 19h00, Grande Auditório do Centro Cultural de Belém

Sábado, 29 de janeiro, 19h00, Grande Auditório do Centro Cultural de Belém

Carla Caramujo (soprano / Princesa), André Baleiro (barítono / Orphée)
Susana Gaspar (soprano / Eurídice), Luís Gomes (tenor / Heurtebize), Marco Alves dos Santos (tenor / Cégeste), Nuno Dias (baixo / Juíz, Comissário), Luís Rodrigues (barítono / Poeta), Cátia Moreso (mezzo-soprano / Aglaonice), João Pedro Cabral (tenor / Repórter, Glazier)

Maestro: Pedro Neves
Cenografia: Daniela Thomas
Direção Cénica: Felipe Hirsch

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