Cinema

Alain Giraudie: "Há um grande regresso do racismo a França"

Alain Giraudie: "Há um grande regresso do racismo a França"

O cineasta francês Alain Giraudie esteve à conversa com o "Jornal de Notícias" sobre o seu filme "Um herói anónimo", já nos cinemas portugueses.

É um dos nomes grandes do cinema francês de hoje, embora a sua obra seja construída um pouco à margem. Autor de filmes como "Os bravos não têm descanso" ou "O desconhecido do lago", estreia agora em sala "Um herói anónimo". O filme passa-se em Clermont-Ferrand, onde um ataque arruína a véspera de Natal. No meio do pânico, um homem de trinta e poucos anos apaixona-se por uma prostituta já de uma certa idade, acreditando que acaba de albergar o terrorista que todos procuram. O JN esteve a falar com o realizador.

O cinema francês é muitas vezes acusado, talvez com razão, de ser demasiado urbano e mesmo parisiense. No seu caso, localiza quase sempre os seus filmes em locais menos esperados...
É verdade que me construí, cinematograficamente, com um cinema muito urbano e muito interior também. Mas sempre tive o desejo dos grandes espaços, de ir para fora. Nunca vivi em Paris, que é uma cidade que não me interessa muito filmar. Nasci e cresci no campo, numa família de agricultores, é esse o meu elemento. Filma-se sempre o seu elemento, a sua classe social, as pessoas que conhecemos e com quem temos laços.

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Porquê precisamente Clermont-Ferrand, uma cidade muito conotada com o cinema, onde se passa um dos festivais de curtas-metragens mais importantes do mundo?
Tinha muita vontade de filmar numa vila e particularmente em Clermont-Ferrand. Penso que é bom para o filme que não se passe numa grande cidade, e se passe numa vila que mesmo os franceses conhecem mal. Já ouviram falar, porque há uma boa equipa de rugby e o festival de curtas, mas conhecem mal a vila.

A sua obra tem alguma relação com o festival de Clermont-Ferrand?
Não. Nunca levaram nenhum dos meus filmes.


Disse que filmava as pessoas que conhecia, mas as personagens deste filme são todas um pouco fora do que consideramos a normalidade. Conhece realmente pessoas assim?
Estas personagens são completamente inventadas, ficcionais, mas uma mistura de pessoas que conheço. O vizinho do terceiro andar, acho que o conheço do meu bairro. Mesmo os árabes, bem integrados, que podemos considerar bons franceses, já os tive como vizinhos. Há uma mistura de mim mesmo, de pessoas que conheço e de arquétipos sociais. Alimento-me muito da realidade, que depois trafico. Reinvento o mundo. E gosto muito de ser mestre de situações pouco prováveis, mas que mesmo assim sejam possíveis.

Mesmo se o filme se passa numa pequena vila, sobretudo as pessoas daquele prédio são um reflexo da França de hoje.
De uma certa França, sim. Diria mesmo que é um retrato da França de antes e da França de hoje. Uma prostituta de 50 anos, francesa, nas ruas de Clermont-Ferrand já não existe. Hoje as coisas passam-se mais pela internet ou em cantos que não vemos. E uma prostituta com um marido que aceita o que ela faz é de outro tempo, é um fantasma da minha parte.

O filme aborda também a questão da islamofobia.
Há muita islamofobia hoje em França, sim. O filme fala de como é que os atentados influenciaram a nossa vida, o nosso quotidiano. Há um grande regresso do racismo em França. Há um grande medo do árabe, que foi cultivado por uma certa parte da população. A direita e a extrema-direita serviram-se muito disso. Há uma certa paranoia que se apoderou de nós.

Se há algo de que não tem medo é de filmar as cenas de sexo.
É curioso porque ao princípio foi muito complicado para mim. Mas agora já estou mais à vontade. Gosto que, se há cenas de sexo, que sejam o melhor possível. Não me contento com alguns planos que depois se montam de qualquer forma. Gosto de coreografar essas cenas com os atores. Eles também receiam, mas fazemos muitos ensaios. Eu também as receio muito. E como as receamos muito, trabalhamos muito na preparação.

Como é que convenceu Noémie Lvovsky a fazer todas essas cenas do filme?
Ela tinha uma grande vontade de fazer o filme. Tinha medo mas uma grande vontade de o fazer. Não foi difícil convencê-la. O grande receio dela era o seu aspeto, queria perder peso para fazer o filme, mas eu aceitei-a como ela era. Pusemo-nos de acordo, fizemos vários ensaios com o Jean-Charles Clichet todo nu na cama e depois, na rodagem, tudo correu muito bem.

O lado mais realista das suas cenas vai contra a tendência de um certo moralismo. Nos anos de 1980 alguns filmes não pornográficos não receavam ter cena de sexo explícito...
É importante manter acesa uma certa chama erótica. De ir contra esse puritanismo. O funcionamento dos órgãos sexuais sempre pertenceu ao cinema pornográfico. O outro cinema evitou sempre os órgãos sexuais, o que torna as cenas de sexo um pouco artificiais. E superficiais. Porque as cenas de amor são quase sempre muito rápidas, no cinema. Despacham-se em três planos e já está. Na vida demoram um pouco mais.

Chega a haver um certo mal-estar no espectador...
O filme joga um pouco com isso. O espectador pergunta-se até que ponto o filme irá levá-lo. O lado político do meu filme tem a ver também com oferecer o direito à sexualidade a mulheres de mais de 50 anos, a pessoas de mais idade. Devolver o erotismo a esses corpos que já não são tão jovens.


A partir de certa altura o ciúme ganha um lugar importante no filme. Considera-se um homem ciumento?
Depende sempre da forma como nos apaixonamos. Penso que quando estamos verdadeiramente apaixonados somos ciumentos. Mas o ciúme no filme é irónico. Eu não sou assim tão ciumento.

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