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Alive em festa com assinatura dos Buraka Som Sistema

Alive em festa com assinatura dos Buraka Som Sistema

A festa a que os Buraka Som Sistema já habituaram o público encerrou o palco principal do segundo dia do NOS Alive. Antes, os Black Keys deram a conhecer algumas canções do novo disco e entusiasmaram os milhares que se encontravam no recinto com os êxitos do antecessor, "El Camino". A 8.ª edição do Alive termina esta noite com os The Libertines a encabeçarem o cartaz.

Os Buraka Som Sistema voltaram ao local onde já foram felizes, desta vez com um disco fresquíssimo para apresentarem à multidão que às primeiras batidas de "Hangover (BaBaBa)" voou até ao palco principal do festival do Passeio Marítimo de Algés, em Lisboa.

"Sabe muito bem estar de volta, ainda para mais com disco novo", atirou Kalaf, para os milhares que já antecipavam o espetáculo que se seguiria. Kalaf, Conductor e Blaya são os mestres-de-cerimónias desta festa em crescendo, não dando hipótese a desistências ou desculpas. Alguns denunciavam as várias horas de concertos a pesar no corpo, mas a grande maioria entregou-se totalmente aos encantos desta banda portuguesa com créditos firmados além-fronteiras.

"Stoopid", primeiro single do recentemente editado "Buraka", acelerou o pulsar da plateia, que se deixou envolver pela contagiante "(We Stay) Up All Night". Blaya não tinha "uma minissaia bem small", mas os seus diminutos calções fizeram vibrar até os mais distraídos. Quando a bailariana e MC trocou os passos frenéticos por uma pose mais provocadora e sensual, a líbido da plateia subiu e os olhares ficaram vidrados nos ecrãs que ladeavam o palco. "Parede" incita o público a imitar os gestos de Blaya - desce, desce, desce e empina o rabo, em loop - antes de um regresso a "Black Diamond" (2008) com "Aqui Para Vocês".

"Quem não esteve aqui nos outros anos, imita o gajo do lado. O nosso lema é não ficar parado", ordena Kalaf. E não dá mesmo para ficar parado com o kuduro progressivo e intercultural dos Buraka. Definir o som da banda é um exercício que parece ficar sempre incompleto. Como o próprio Kalaf explica, durante o concerto, esta é uma música que explora "culturas que não passam na televisão, que não são visíveis."

"Vuvuzela" e "Sound of Kuduro" vitaminaram a plateia para "Tira o Pé", enquanto o palco era invadido por público feminino que, no meio da excitação, tentava reproduzir os passos de Blaya. "Kalemba (Wegue Wegue) incendiou o recinto já perto da despedida, provando que as canções de agora e de outrora interagem na perfeição.

Assim que os Black Keys se fizeram anunciar, perto das 22.30 horas, era ver gente a correr em direção ao palco principal. Ninguém queria perder pitada do regresso do duo norte-americano aos palcos portugueses. Com disco novo pronto a ser descoberto, "Turn Blue", Dan Auerbach e Patrick Carney contrariaram eventuais expectativas e arrancaram com "Dead and Gone", canção do antecessor e muito bem sucedido "El Camino" (2011). Estava dado o mote para um concerto que se resguardou nos sucessos, aventurando-se no novo registo apenas à sexta música, com "It's Up to You Now". O público agradece o mimo e vibra. Clássicos são clássicos e os novos temas ainda não estão no panteão dos fãs.

A guitarra de Dan é retumbante na acarinhada "Howlin' for You", que inspira muitas meninas a treparem para as cavalitas dos amigos pare terem uma visão privilegiada sobre o palco e o público que se estende para lá das suas costas. "Nova Baby" soma-se à lista de favoritas e é prova da celebração rock 'n' roll que corre nas veias da banda. Aqui não há lugar a artifícios. Há rock com classe e laivos blues, leves incursões pelo rock psicadélico e soul no novo "Turn Blue".

"Fever", single recente, marca o compasso para o hino mais celebrado do grupo: "Lonely Boy", entoada com convicção pelo recinto fora. Talvez tenha faltado apenas alguma fluidez na passagem entre as canções para que não houvesse mácula na atuação dos norte-americanos. Os tempos mortos entre canções eram perfeitamente dispensáveis, mas o público parece ter desvalorizado o "pormenor".

Poucos terão ouvido falar nos The Last Internationale. Basicamente apresenta-se assim: é a nova banda do baterista dos Rage Against The Machine, Brad Wilk. Passaram pelo Alive e deixaram vincada uma postura acentuadamente política, panfletária, intervencionista. São um trio, e para além de Wilk, há uma moça nas vozes - Delila Paz, belíssima - e Edgey Pires, um descendente de portugueses.

Em Algés não houve espaço para equívocos e disseram logo ao que vieram: fizeram a sua aparição no palco depois de terem emitido uma gravação de um discurso de Gil Scott Heron ("the revolution will not be televised"), atuaram à frente de uma bandeira negra e vermelha com estrelas brancas, cantaram sobre o desemprego e a urgência de revolução, enviaram ataques "a todos aqueles que andam a estragar isto tudo" e, cereja no topo do bolo, arremessaram palavras a "Pausôus Coeilho", dedicando-lhe mimos impublicáveis.

Apesar de desconhecedor do trabalho da banda, o público recebeu-os bem. Os momentos em que assumiam que despejavam canções "contra o capitalismo" foram bastante aplaudidos. A maior surpresa aconteceu quando os americanos se aventuraram a cantar um pedaço de "Grândola Vila Morena" - e aí conquistaram definitivamente o recinto. Despediram-se com uma canção sobre o Maio de 68. Eis uma bela descoberta - e uma banda a acompanhar com atenção.

Curiosamente, um pouco antes, os Vicious Five também tiveram um momento que desencadeou reflexão socio-política. A meio do concerto, o vocalista Joaquim Albergaria questionou o povo: "Quem é que aqui é recibo verde?". Somente uns poucos ergueram a mão, acanhados e constrangidos. "A sério, estamos assim tão bem?", reagiu o espantado cantor. Mas não demorou a constatar a evidência: "Ah, afinal estão todos desempregados, não tinha percebido".

Os Vicious Five foram um dos mais entusiasmantes episódios do rock português da década passada e eclipsaram-se em 2009. Voltaram ao Alive para um concerto único com o intuito de dizer o adeus que nunca disseram. Deram um concerto à altura dos seus pergaminhos e recusaram dramatismos. Assumiram estar no próprio funeral mas pediram celebração e pouco choro. Estão - estamos todos - mais velhos, mais gordos, uns mais carecas outros mais cabeludos. Mas ele, Joaquim Albergaria, continua com o rock a escaldar-lhe nas veias: redemoinhou o fio do microfone no ar, debruçou o corpo tatuado enquanto trovejou as letras de "Your mouth is a guillotine" ("a tua boca é uma guilhotina") ou "Fallacies and fellatio". Foi um concerto incrível e é pena que se apague tamanha chama no rock em Portugal.

Os nova-iorquinos MGMT atuaram enquanto o sol se deitava atrás do palco e debitaram um interessante cruzamento de rock melódico com intromissões eletrónicas patentes em momentos como "Time to pretend" ou "Introspection". Só foi pena terem passado o tempo inteiro com um ar vagamente de frete, como quem ali estava somente em piloto automático a despejar as canções dos cê-dês.

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