Livro

"Beat": o sobressalto eterno como modo de vida

Sérgio Almeida

"Beat" foi distinguido com o Prémio Literário César Vallejo

Luís Filipe Sarmento faz do seu novo livro de poesia um apelo à revolução permanente

Liberdade; revolução; resistência. É esta a santíssima trindade da obra literária que Luís Filipe Sarmento tem vindo a erguer desde 1975, com "A idade do fogo", e se manifesta de modo particularmente fecundo no seu mais recente livro.

Habitado por diferentes vozes literárias, "Beat" não deixa de ser, todavia, uma obra profundamente pessoal. Nenhuma contradição insanável se encontra nessa duplicidade: quanto mais recetivo o autor se mostra a receber estímulos exteriores, mais evidente é também a vontade de reafirmar a sua individualidade, de observar, em suma, a experiência do mundo a partir das suas próprias crenças e convicções.

Cada um dos oito capítulos do livro é dirigido a um autor ou figura literária, na sua maioria pertencente à geração "beat". Dos obrigatórios Jack Kerouac, Allen Ginsberg ou William Burroughs aos menos óbvios Gregory Corso e Diane di Prima, há uma vontade de interpelação direta que relaciona circunstâncias de vida ou literárias de cada um desses autores com uma forte dimensão autobiográfica.

Ao apelo imediato à mudança que a geração beat lançou à sociedade norte-americana nas décadas de 1950 e 1960 responde Sarmento com os anos revolucionários no Portugal da década de 1970, nos quais uma geração, farta da tacanhez do regime e da perpetuação de uma guerra sem sentido, não exigiu menos do que o impossível.

Guiados pelas palavras dos poetas que veneravam, "hordas de jovens de longos cabelos e música aos ombros" descobriram "um país perpétuo por desvendar e nele a essência da felicidade explosiva e efémera que os poemas transbordantes de espanto iam registando em velhas sebentas entre os poderosos granitos das montanhas e a coreografia amanteigada das ondas ao longo de novecentos quilómetros de praias".

O tom de fruição é uma constante neste "livro-autobiografia-poema-ensaio-testemunho-panfleto", como o sintetiza a professora universitária Graça Capinha, que é pródigo em episódios de uma juventude do autor marcada pela irreprimível vontade de "percorrer o imprevisto" e "saborear com todos os sentidos o que fora proibido". Como uma viagem sem rumo definido à partida, "Beat" convoca a linguagem poética das ruas para combater o artificialismo dos mercados e dos salões onde tudo se transaciona, até as palavras. v

Beat Luís Filipe Sarmento The Poets and Dragons Society