Cultura
Bloco de notas de um repórter em Israel
As melhores laranjas do mundo são uma mutação e uma surpresa da natureza: laranjas carnosas que parecem manchadas por morangos, infundidas permanentemente de mel. Ovais, pele fina, sem grainha, são a principal exportação de Israel (depois de tecnologia e do armamento, claro).
Foram os palestinianos os primeiros a plantá-las há 170 anos e produziam até 200 mil/ano. Quando os judeus lá chegaram impeliram a produção para 30 milhões/ano. Não é barato, mas numa esplanada de Jerusalém um sumo destas laranja Premium, tidas como as melhores do mundo, custa menos do que uma cerveja.
Dormir com Arthur Loomis Harmon
Há dois edifícios que me enchem toda a janela do quarto do outro lado da rua: o neo-bizantino da Fundação YMCA, que tem torre, uma abóbada e um bloco quadrado para agradar às três religiões do único Deus, e o amarelo mais torrado do Hotel King David que parece um bunker de um sultão. Foram desenhados pelo arquiteto Arthur Loomis Harmon, o mesmo do Empire State Building de Nova Iorque.
Por qué no te callas?
Hoje ouvi durante 12 minutos uma explicação em hebreu do filme "The assassin", a parábola da morte e da grande beleza de Hou Hsiao Hsien na China imperial do século 9 com uma assassina de Estado (a seráfica Shu Qi) mais rápida a matar infiéis do Imperador do que a inclemente ctenídea. Quando o apresentador já ia em mais de dez minutos de palavreado, um espectador gritou-lhe qualquer coisa que o fez amarelecer, apontar para o ecrã e embrulhar o resto do tagarelado num minuto. Não percebi nada, era hebreu, mas devia ser qualquer parecido com o que Juan Carlos disse ao desditoso Hugo Chavez e que a mim me apetecia dizer desde o início.
Síndrome de Jerusálem
Já estou cá há três dias e ainda não apanhei o síndrome de Jerusalém. É uma coisa mental provocada pela cidade e pela imensa e taquicárdica concentração de sites históricos, que são aqui dos mais importantes para as três religiões, de cristãos, judeus ou muçulmanos. Provoca a mitificação do indivíduo, oferecendo-lhe ideias obsessivas de deificação, delírios, tremores e experiências de cunho psicótico. Espero que não se apanhe na água da torneira que tenho andado a beber.