Cannes

Cinema português regressa à secção oficial de Cannes pela porta grande

João Antunes (em Cannes)

Marin Grigore, Macrina Barladeanu, Cristian Mungiu, Maria Dragus e Judith State

Foto Loic Venance / Afp

Equipa de "Restos do Vento", de Tiago Guedes, subiu ontem a passadeira vermelha

Na apresentação da equipa do filme, no palco da Sala Buñuel, Thierry Frénaux, responsável máximo pela programação da secção oficial de Cannes, bem o frisou, mas como se não fosse ele um dos principais responsáveis pelo facto: há já dezasseis anos que um filme português, maioritariamente português e com um realizador português, não era selecionado.

O último a ter essa honra fora na realidade "Juventude em Marcha", de Pedro Costa, candidato à Palma de Ouro de 2006. Ontem, "Restos do Vento", de Tiago Guedes, sucedeu-lhe, embora fora de competição, numa das sessões especiais do festival. O que levara, de qualquer forma, o realizador, o produtor Paulo Branco, o argumentista Tiago Rodrigues, aliás novo diretor do prestigiadíssimo Festival de Teatro d"Avignon, e os principais atores do filme, como Nuno Lopes, Albano Jerónimo ou Isabel Abreu, a subir pouco antes a lendária passadeira vermelha de Cannes.

"Restos do Vento" era um projeto que Tiago Guedes transportava há cerca de uma década, e cuja falta de financiamento levara o autor a realizar entretanto "A Herdade", "Tristeza e Alegria na Vida das Girafas" e várias séries de televisão. O filme, uma tragédia enraizada bem no fundo de uma pequena comunidade do interior do país, parte do trauma causado num dos seus jovens pela tradição pagã e ancestral dos caretos. Vinte e cinco anos depois, o reencontro de várias personagens com o seu passado e a ocorrência de um crime vem trazer ao de cima segredos enterrados e culpas não expiadas.

Ao mesmo tempo que encerra um drama onde ressalta muito do que nós somos, enquanto portugueses, "Restos do Vento" vive de uma condução sólida e segura da narrativa pelo realizador, da assombrosa fotografia de Mark Bliss e do notável trabalho de alguma da elite dos atores e atrizes portugueses, oferecendo-nos um filme que merecia seguramente uma entrada na competição e que já tem encontro marcado com o público nacional para o próximo dia 22 de setembro.

Entretanto, a competição continuou o seu curso, com a exibição dos novos filmes de dois do já vencedores da Palma de Ouro, o sueco Robert Ostlund (O Quadrado, em 2017) e o romeno Cristian Mungiu (4 Meses, 3 Semanas e 2 dias, em 2007). O novo filme do sueco, "Triangle of Sadness", segue aliás a visão irónica e corrosiva do sueco sobre a vida e as artes que o levara à conquista do prémio maior de Cannes. Construído em três atos, o filme inicia-se num casting de modelos masculinos, seguindo depois para uma viagem num iate de luxo e terminando numa ilha aparentemente deserta onde vão ter alguns dos sobreviventes do naufrágio da embarcação.

Quem apreciou "O Quadrado", um filme nada consensual e que despertou paixões enquanto deixou outros indiferentes, recorda-se decerto da já icónica sequência do jantar. Agora, neste novo filme, o jantar é no mar alto e a escatologia invade o espaço dramático do filme, tornando-o apenas acessível a estômagos habituados a tamanha liberdade criativa. Não parece no entanto credível que Ostlund venha a ter de novo lugar no palmarés final.

Tal pode pelo contrário bem acontecer com o romeno "R.M.N.", onde Mungiu se centra numa pequena vila nas montanhas da Transilvânia, com a economia muito centrada numa fábrica de panificação, com a propriedade e a gestão a cargo de duas mulheres. Mas, com os homens a terem de emigrar para a Alemanha e outros países da região, há falta de mão de obra qualificada e a fábrica vê-se obrigada a aceitar trabalhadores do Sri Lanka para poder continuar a operar.

Só que a comunidade, muito virada para si mesma, e já depois de expulsar uma comunidade de ciganos, revolta-se, deixa de comprar o pão onde sempre o fez e não desiste enquanto não expulsa os trabalhadores estrangeiros. Mungiu é implacável na denúncia da xenofobia, ao mesmo tempo que descreve em belas pinceladas, carregadas de humanismo, a vida de alguns dos habitantes da localidade.

Uma tradição pagã numa vila do interior de Portugal deixa traços dolorosos num grupo de jovens adolescentes. 25 anos depois, ao reencontrarem-se, o passado ressurge e a tragédia instala-se.