Companhia dos Livros

Joseph Roth e a nostalgia do império perdido

Sérgio Almeida

Joseph Roth

Foto Direitos Reservados

Uma novela quase esquecida do autor austríaco sobre um mundo em mudança.

Na impressionante obra literária que Joseph Roth nos legou - apesar de ter vivido apenas 44 anos -, "O busto do imperador" não será dos títulos mais citados, obscurecido pelo fulgor de narrativas longas como "O leviatã", "A marcha de Radetzki" ou "A cripta dos capuchinhos". E, todavia, há nesta breve novela elementos suficientes, quer biográficos quer literários, para que seja mais do que uma mera nota de rodapé na rica bibliografia do autor austríaco.

No drama de um velho fidalgo que vê esboroar-se o mundo em que sempre viveu e acreditou, encontramos, antes de mais, o próprio Joseph Roth, um filho do Império Austro-Húngaro cuja queda o precipitou numa espiral de errância geográfica e psíquica que terá contribuído em larga medida para a sua morte precoce.

A nostalgia de um passado irrecuperável atravessa toda a narrativa, sobretudo quando Roth descreve o personagem central, o conde Franz Xaver Morstin. Representante do imperador Francisco José numa insignificante povoação na região da Galícia Oriental, o orgulhoso nobre foi, durante décadas sucessivas, o rosto do próprio regime, a figura paternal a quem todos recorriam quando necessitavam de um favor, fosse burocrático ou de qualquer outra índole.

A solicitude do conde só era mesmo ultrapassada pela fé cega num sistema que julgava eterno (o reinado de Francisco José estendeu-se por 68 anos) e o levava, por isso, a ignorar as origens polaca e italiana que também tinha, em nome de uma obediência de contornos semidivinos.

Quando o impensável sucedeu e a morte do imperador fez vir ao de cima as profundas divisões étnicas, desmoronando em meses o que demorou muitas décadas a ser erguido, Morstin entrou numa espiral de negação quase risível, não fora dar-se o caso de ter sido apenas a expressão do mais profundo desespero e a incapacidade absoluta do ancião de adaptar-se a um mundo do qual já não conseguia sequer apreender o verdadeiro sentido.

Na ausência do império de dimensões faraónicas, o conde socorreu-se por fim do tosco busto do imperador, uma peça de valor artístico nulo que um camponês esculpiu e colocou no exterior da sua moradia. Sem poder ou glória, mas iludido até ao fim, Morstin depositava no dito busto a derradeira prova física de um império que já só existia na sua mente.

O busto do imperador Joseph Roth Assírio & Alvim