Conferência

Masterclass de Nan Goldin: "O privado é político e universal"

Ricardo Jorge Fonseca

Nan Goldin, autorretrato

Foto D.r.

Fotógrafa e cineasta norte-americana Nan Goldin deu uma rara masterclass no Porto sobre a sua obra. Os seus "slideshows" passam esta quarta-feira no Teatro Rivoli

"Não é sobre drogas, nem sexo, nem a cena punk. A "Balada" é sobre a condição humana e as dificuldades nas relações. É sobre a luta entre autonomia e dependência". Assim se referiu Nan Goldin a "The ballad of sexual dependency" (1985), a sua mais famosa sequência de imagens, durante a masterclass que conduziu ontem, no Teatro São João, no Porto. A fotógrafa e cineasta norte-americana, uma das mais proeminentes artistas dos últimos 50 anos, deslocou-se a Portugal para receber o grau de doutoramento "honoris causa" da Universidade Lusófona, no âmbito do festival de cinema Multiplex.

Encantada com a sala do São João, repleta de estudantes, curiosos e admiradores, Nan Goldin (n. 1953) fez desfilar imagens de algumas séries famosas, sublinhando a dificuldade de olhar isoladamente para cada uma delas: "Foram pensadas para slideshows e têm um significado quando vistas em conjunto e acompanhadas por música. Isoladas são outra coisa, não sei bem o quê". Talvez se perca algo de fundamental para Nan Goldin, que tornou a sua vida inseparável das fotografias: "O sujeito da imagem tem uma palavra a dizer. Nunca fotografei ninguém nem exibi os resultados sem o consentimento da pessoa. E só retratei aqueles com quem tinha ligação emocional".

"Deixei de fotografar"

Saída de uma família judia dos subúrbios de Boston, encontrou a sua pertença na comunidade LGBTQI+ da Nova Iorque de 1970/80. "Uma pessoa trans, naquela época, não podia ter uma vida normal, não havia "gender knowledge", a discriminação era total. Pois eu achava que as "drag queens" mereciam estar na capa da "Photo". Fotografava-as para homenageá-las". A sua primeira série de diapositivos, "The ballad of sexual dependency", cobre o período de 1979 a 1985 e capta a Nova Iorque da No Wave, da cultura das drogas no bairro Bowery e da praga da SIDA.

"A maior parte das pessoas destas imagens estão mortas". É uma das razões para ter deixado de fotografar. A outra é o significado contemporâneo da fotografia: "Houve sempre imagens a mais. Mas hoje, com os telefones, já é outro patamar. Para mim, deixou de ter sentido fotografar".

Essa primeira série, "o diário que eu deixei as pessoas lerem", evidenciou logo outro traço que iria marcar a obra de Nan Goldin - a crueza autobiográfica e a noção de que "o privado é político e universal".

"Nunca encenei as imagens. Fotografava-me a mim e aos meus amigos em situações de festa, de intimidade, de consumo de drogas". A mais emblemática dessas imagens mostra a artista com o rosto pisado: "Foi um amante que me fez isto, quase me deixava cega. Fotografar-me assim ajudou-me a livrar-me dele. Porque há a tendência para voltar a quem nos faz mal".

Tal como com as drogas, que "começaram como um prazer e se tornaram uma armadilha", admitiu Goldin, de voz trémula, viciada e reabilitada diversas vezes - também em OxyContin, o polémico medicamento que cria dependência e que mata centenas de milhares. O seu combate contra a família Sackler, proprietária da farmacêutica responsável, foi lembrado na masterclass.

O "êxtase das drogas"

A relação com "o êxtase das drogas" é explorada em "Memory lost", uma das séries em exibição esta quarta-feira no Teatro Rivoli, no Porto, juntamente com "Sirens" e "The other side".

Trata-se de uma recolha de imagens de filmes onde se capta a alteração da consciência e da memória. Foi também um trabalho sobre os seus arquivos e uma aproximação ao cinema, algo que agora interessa particularmente a Nan Goldin. Foi produtora e protagonista de "All the beauty and blooshed", documentário de Laura Poitras sobre a vida e obra da fotógrafa que arrecadou o Leão de Ouro no Festival de Veneza 2022.