Porto

O passado como fantasma no Teatro São João

Ricardo Jorge Fonseca

Estreia esta quinta-feira "Espectros", de Henrik Ibsen, com encenação de João Mota para a Seiva Trupe. Custódia Gallego é a protagonista de um espetáculo sobre as heranças fatais do passado. Em cena até 29 de maio.

Uma tela onde se vislumbra uma paisagem nórdica é o pano de fundo para uma sala de estar burguesa, com piano e "chaise-longue", cenário habitual das peças de Henrik Ibsen (1828-1906) e da chamada "drawing room play". Será neste ambiente que flutuará "Espectros", o texto escrito em 1881 pelo dramaturgo norueguês que a Seiva Trupe, com encenação de João Mota, estreia esta quinta-feira no Teatro São João.

"Espectros" será uma das peças, tal como "Rosmersholm", "O pato selvagem" ou "John Gabriel Borkman", em que é mais evidente a "técnica analítica" desenvolvida por Ibsen, ou seja, uma dramaturgia na qual a ação do presente serve de suporte a uma análise das ações do passado, aquelas que verdadeiramente motivam o drama. Este modo de escrever teatro entrou em choque com a estrutura das peças clássicas, que se focavam apenas na ação contínua do presente (na "jornada fatal", como lhe chamou Sófocles), e fez de Ibsen um dos primeiros dramaturgos modernos.

É do passado que vêm todas as culpas, remorsos e traumas que atormentam as personagens, interpretadas por Custódia Gallego (Helene Alving), Júlio Cardoso (o pastor Manders), António Reis (Engstrand), Catarina Campos Costa (Regine Engstrand) e Ricardo Ribeiro (Osvald Alving). Através de longos monólogos em que se sucedem as revelações, perpassam temas como o adultério, a eutanásia, o incesto, a condição da mulher ou a luta de classes, mas o acento não recai em nenhum dos acontecimentos evocados - o tema central de "Espectros" é o próprio passado, o modo como ele nos condiciona e define. "Não é só o que herdamos dos nossos pais e mães que perdura em nós, mas toda uma série de atitudes antiquadas e de crenças mortas", diz a protagonista (Custódia Gallego numa atuação poderosa), resumindo a sua condição atávica.

A encenação sublinha essa espécie de ritual que é o efeito invisível do passado sobre as nossas vidas, através, por exemplo, dos movimentos cerimoniosos dos atores nas entradas e saídas do seu espaço gestual. E a iluminação carrega o ambiente com um tom sanguíneo e soturno. Espectros são as heranças que recebemos e nos consomem.