Banda Desenhada

Os desenhos como preço pela vida

F. Cleto e Pina

O percurso de um tatuador, da Sibéria soviética à Nova Iorque de 1970.

Por vezes, a ficção prega-nos partidas, aparentando sobrepor-se à atualidade ou, pelo menos, complementá-la. "Little tulip", acabado de chegar às livrarias numa edição da Ala dos Livros, remete para um tempo em que a União Soviética ainda existia e em que as inimizades entre russos e ucranianos já eram uma realidade.

Apesar da narrativa arrancar em 1970 em Nova Iorque, rapidamente vai remeter para a infância do protagonista, Pavel - cujo apelido dá nome ao livro -, quando os pais, emigrantes americanos na União Soviética, são presos como supostos espiões após a II Guerra Mundial. Separado deles à chegada ao gulag, terá de fazer de tudo para sobreviver, vendendo, literalmente, o corpo e a sua arte de tatuador. Assim, vai descobrir da maneira mais difícil que na vida só pode confiar em si e que o gosto pelo desenho que o pai inculcou nele pode ser uma chave para abrir muitas portas, num microcosmos amoral onde a prepotência e a violência imperam e onde tudo tem um preço muito alto.

Este reencontro entre o romancista americano Jérôme Charyn e o desenhador francês François Boucq rendeu mais uma história forte e cruel, narrada a dois tempos, entre o desolador gulag siberiano, sob a opressão dos guardas e dos chefes dos diferentes gangues russos e ucranianos, e a fervilhante Nova Iorque, onde Pavel trabalha como tatuador e traça desenhos-robô para a polícia. O seu percurso irá cruzar-se com o de um serial killer que viola e mata jovens mulheres, provocando um reencontro com um passado que desejava esquecer, mas cujos fantasmas estão bem mais próximos do que alguma vez imaginou.

Bem construída em termos de ritmo, com os sucessivos saltos ao passado a justificarem o presente num tom de sucessivas descobertas, numa alternância de cenas de diferente intensidade, esta é uma história sobre crescimento, iniciação, descoberta e, acima de tudo sobrevivência, em que um surpreendente humanismo choca sucessivamente com o que de mais brutal o ser humano ostenta.

Apesar de só agora ter edição nacional, "Little tulip" é anterior a "New York cannibals" (Ala dos Livros, 2020). Se é verdade que os dois livros funcionam independentemente, a leitura conjunta traça um retrato mais amplo e fornece outras respostas.

Little tulip Boucq e Charyn Ala dos Livros