Cinema

"Para acabar o filme tive de vender a minha casa"

João Antunes, em Gramado

O realizador Leonel Vieira quis filmar o Rio de Janeiro cinzento, mais feio e cru.

Foto Paulo Spranger/goobal Imagens

Leonel Vieira fala-nos de "O Último Animal", que estreou no Festival do Gramado, no Brasil, e lança pistas para o seu próximo filme, sobre a obra "O Crime do Padre Amaro".

Em estreia mundial na competição internacional no Festival de Gramado, no Brasil, Leonel Vieira falou-nos de "O Último Animal". O enredo do filme é passado numa comunidade do Rio de Janeiro, cruzando um jovem que tenta ultrapassar a sua condição social e um barão do ilegal Jogo do Bicho, interpretado pelo ator português Joaquim de Almeida.

"O Último Animal" é o seu "Zona J" brasileiro?

Este filme é o que germinou do "Zona J". Eu era jovem, tinha 26 anos, era o meu Romeu e Julieta. O filme era para ser mais leve, mas levei-o para um lado mais cru. Mas aquele filme soube-me a pouco. Eu adorava o "Ódio", do Kassovitz. E ainda tenho de fazer o meu "Ódio". Este é um filme nesse caminho.

Este era um projeto também já antigo.

Eu ia trabalhando nele. Nunca me preocupei, ia fazendo outros filmes. Eu tinha uma produtora, com sócios financeiros, um fundo de investimento e tinha de alimentar aquela casa. Tinha de fazer dinheiro. Quando se assina um acordo tem de ser fiel a ele. Essa era a filosofia daquela produtora. Hoje, depois dos meus 50 anos, tive de repensar o que estava aqui a fazer.

A versão final de "O Último Animal" é já um resultado dessa reflexão?

Voltei aos dramas, aos filmes duros. Fiz este filme e fiz, no ano passado, a obra original do Padre Amaro [de Eça de Queiroz, 1875]. Penso que é o meu melhor trabalho. Um drama, onde me sinto feliz.

Quando é que o vamos poder ver?

Para o final do ano. Estou muito feliz com o resultado. Nem estou a pensar se vou ter audiência. Todos os que fizeram o Padre Amaro aproveitaram-se do lado sexual para vender. Eu não o quis fazer.

Qual é que foi então a sua perspetiva?

Quis olhar para a obra do Eça e trabalhar o seu lado mais importante. É uma obra tremendamente crítica de uma época, mas que se aplica ainda a hoje. O que me interessou foi uma discussão de Igreja e de sociedade. O lastro latino no nosso comportamento social, que ainda temos hoje.

Sente que é um voltar atrás na sua carreira?

Foi deliberado, foi uma decisão pensada, até porque a Stopline fechou. Com a pandemia não se aguentou, foi um processo complicado. Estes anos passaram muito rápido na minha vida. É claro que fiz alguns dos maiores êxitos de bilheteira, mas quando olho para trás, era o cinema de quando comecei, quando fiz "A Sombra dos Abutres", o que eu queria fazer. Tenho de andar depressa e voltar ao lugar onde parei. Com uma vantagem. Conheço muita gente, muitos mercados. Tenho mais possibilidade de fazer o que quero do que tinha naquela época.

Voltando a "O Último Animal", não se sentiu visto como um estrangeiro, nos locais onde filmou no Rio de Janeiro?

Nas favelas? Não. As pessoas são muito generosas e eu estava muito bem rodeado. Os jovens atores que trabalharam comigo estão a explodir todos, estão a fazer grandes filmes. Eu não queria gente conhecida. Queria uma aposta na verdade, como em "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite". Para as pessoas não identificarem as personagens com as que conhecem das novelas.

E trouxe o Joaquim de Almeida de Portugal.

Somos muito amigos. Queríamos fazer um filme onde trabalhássemos à série, realização e direção de ator. Tinha-lhe dito que o ia dirigir tanto que ia fazer a personagem mais diferente da vida dele. Não sabia se ia conseguir, mas acho que o Joaquim está brutal.

Como é que trabalhou para chegar a essa diferença?

O Joaquim interpreta muitas personagens com uma forma latina específica. Eu queria que ele saísse desse lugar de conforto. Mudei-lhe o ritmo de fala, ele fala mais devagar. Isso foi um trabalho. Criou-lhe uma complicação, porque ele fala muito depressa, é orgânico. Falámos muito sobre o Marlon Brando, do "Padrinho".

Também se sente uma certa transformação física.

É a primeira vez que o Joaquim o faz. Dei-lhe uma barriga gorda, um penteado feio, um bigode ridículo. Quando lhe mostrei um desenho que tinha feito ele nem queria acreditar. E com aqueles óculos horrorosos. O resto dos atores foram sendo aconselhados por muita gente. O Duran Folton Brown foi através de amigos em Londres e vim a descobrir que ele foi criado nos bairros favelados de Londres. O inglês dele até tem esse sotaque.

Imagem do filme "O Último Animal", que deverá estrear em Portugal no final de 2022.

Foto: DR

A parte da "cidade maravilhosa" do Rio de Janeiro nunca é mostrada, só a vemos de longe, sobretudo à noite.

Isso estava claro para mim mesmo antes de filmar. Eu tinha este filme muito na cabeça. Queria uma luz cinza, um filme como se fosse a preto e branco. Queria o Rio dos cinzas, conheço a cidade há muitos anos, sei como é. Filma-se quando chove, quando há nuvens e fica feio.

Teve algumas dificuldades em financiar este projeto?

Pelo contrário. Ofereceram-me muito dinheiro ao longo do tempo para este filme. Tive o filme financiado, por exemplo pelo Richard Branson, que queria financiar o filme a cem por cento. Este filme surpreendeu muta gente, trabalhámos muito nele. Eu nunca me vendi por este filme. Pelo contrário, quase me arruinei. Mas tinha a clara consciência de que queria voltar ao cinema que fiz no início. Quiseram mudar o final, para ter um final feliz. Nunca aceitei. Nós falamos de coisas muito duras da realidade.

O filme ainda não estreou, mas já o mostrou a algumas pessoas?

Quem viu o filme no Brasil disse-me que era o filme mais honesto que se fez sobre esta realidade. Que eu tive a coragem que outros não tiveram. Porque mostro a culpa de todos. E aponto o dedo.

Quando é que o filme vai chegar a Portugal?

Estamos em negociações com um grande grupo internacional. Em Portugal o filme é da NOS. Gostam muito do filme. Tem o Joaquim de Almeida num grande momento. Mas estamos num mau momento de cinema. Temos tempo, vamos de fora para dentro. Vamos ver que valor conseguiremos ter no internacional e depois marcamos o lançamento para Portugal quando tivermos isso para contar. Temos seis, sete ou oito meses pela frente para esse trabalho, para ver se temos a compensação do sacrifício e do trabalho que deu. Para acabar o filme, tive de vender a minha casa.