Cinema

Park Chan-wook: "Não gosto muito de filmar cenas de ação"

João Antunes

Park Chan-wook, realizador coreano|

 foto D.R.

Park Hae-Il, o detetive, e Tang Wei, a mulher misteriosa|

 foto D.R.

Park Chan-wook, Park Hae-Il e Tang Wei, em Cannes|

 foto D.R.

Já está nas salas portuguesas o novo filme do realizador coreano Park Chan-wook, "Decisão de partir", que saiu de Cannes com o prémio de Melhor Realizador. É uma história de detetives e um filme sobre o amor. Nesta entrevista ao JN, o cineasta revela o peso que Hitchcock tem na sua formação.

Bastará pronunciar o nome "Oldboy" para uma geração de cinéfilos, apaixonados pelos filmes coreanos e pelo cinema de emoções fortes, ficar de alerta para o que aí vem. E é verdade, "Decisão de partir", o último filme do coreano Park Chan-wook, prémio de Realização em Cannes, já está em exibição entre nós.

O filme é uma investigação sobre o desejo. Começa com a descoberta do corpo de um homem morto depois de uma queda do alto de uma montanha. Um detetive da polícia é chamado a investigar. Um ano depois, descobre que o novo companheiro da viúva também morreu em circunstâncias estranhas. Mas entre os dois começa a desenvolver-se uma estranha relação... O JN esteve a falar com Park Chan-wook.

Considera o seu filme uma história de amor ou um filme policial?

Para perceber bem o meu filme é preciso entender que estes dois géneros são apenas um. Não é um drama policial e um romance. Não se pode por um "e" entre os dois. É uma única história, com duas dimensões. Mas se me forçar a escolher um deles, eu diria que é um romance. Pode ser definido como um policial negro, é o que se depreende do trailer. Avisei a minha equipa para ter cuidado com isso, não queria que o meu filme fosse visto apenas assim. Queria que tivesse um ênfase maior no lado romântico.

Mas o filme centra-se numa investigação policial...

Mesmo se olhar para esse aspeto do filme, vai ver um homem e uma mulher que se encontram, que tentam perceber o que a outra pessoa está a pensar, quais são as suas intenções. Tentam descobrir o mistério por detrás da outra pessoa. Ela também é detetive à sua maneira. Não quero que o meu filme seja considerado um policial negro, porque quando há uma personagem feminina forte nesse género, é logo catalogada como mulher fatal. E a personagem da Tang Wei não é uma mulher fatal.

Precisamente: porque escolheu uma chinesa para personagem central do filme?

Receio que a minha resposta o desaponte, porque não houve nenhuma opção artística ou política por detrás desta decisão. Quando começámos a escrever o filme não tínhamos nada a não ser uma página em branco. Eu e o meu coargumentista somos grandes fãs da Tang Wei e por isso dissemos logo que a personagem feminina seria chinesa. Nem sabíamos a profissão dela ou a sua identidade.

E a partir daí, como se processou a construção da personagem?

Começámos por nos perguntar o que estaria ela a fazer na Coreia. E nós gostamos muito de descrever uma personagem que está isolada e sozinha e pensámos que esta personagem, uma chinesa a viver na Coreia, numa sociedade muito exclusiva em relação a estrangeiros, seria perfeito.

O facto de a personagem não falar um coreano correto levanta a questão da falta de comunicação. Esse tema também lhe interessou?

Não há nada que eles não possam comunicar. Não é uma situação em que duas pessoas não possam comunicar por causa da língua. Não quis ir tão longe. Mas é verdade que a barreira da língua torna a personagem feminina ainda mais atrativa e encantadora para o detetive. O coreano que ela fala não é errado; as expressões são as corretas, ela fala um bom coreano. É o sotaque dela que o torna um pouco diferente.

Como é que essa diferença é vista no seu país?

Para os coreanos, é engraçado, é mesmo refrescante. O importante é que se perceba o que ela diga e percebe-se. Dá a impressão é que ela aprendeu coreano através de livros e que estudou muito. E também de novelas televisivas. Como a personagem do detetive diz no filme, é um coreano demasiado correto. É um coreano clássico.

Há também a máquina de tradução simultânea...

Foi um dispositivo que utilizei. Se ouvirem a voz que sai da máquina, é uma voz seca, masculina, e embora as expressões estejam corretas, é mais como uma tradução letra a letra. No final, quando ela lhe confessa que está apaixonada por ele, a voz que sai da máquina é feminina. Mesmo que continue a ser uma voz maquinal, identificamo-nos com ela e com as emoções que transmite.

O filme é quase hitchcockiano. Qual a sua relação com o cinema de Hitchcock?

É engraçado que diga isso, porque quando estava a fazer este filme nunca pensei em Hitchcock ou em nenhum dos seus filmes. Mas quando o filme começou a ser mostrado, muita gente disse que sentia a influência de Hitchcock. Penso que percebo porque veem essa influência. E acabo por concordar. Talvez esteja no meu sangue, no meu ADN, no meu subconsciente. É verdade que, quando estudava cinema, os filmes dele eram a minha cartilha. Talvez seja uma influência natural

Qual o filme de Hitchcock de que mais gosta?

É o "Vertigo". Mas houve um filme que sugeri que o coargumentista visse, para entrar no espírito do que eu queria. Foi o "Breve encontro", do David Lean.

O seu cinema funciona como um relógio suíço, está tudo no sítio certo. Considera-se um perfeccionista?

Mas desta vez calculei mal o tempo do filme. Quando terminei a primeira montagem, era demasiado longo. Depois, o processo de cortar o filme foi muito longo. E é verdade que foi muito rigoroso. Foi mesmo imagem a imagem. Se podia cortar uma imagem, cortava. Penso que o resultado final é bastante eficaz. E é por isso que o filme é tão tenso. Todo o processo não só reduziu a duração como aumentou a tensão.

O processo de produção do filme foi apanhado pela pandemia. Em que medida isso influenciou o filme?

Quando termino uma rodagem, costumo ter uma janela definida para a estreia do filme. Com a pandemia, como não havia salas de cinema e estreia prevista, tive tempo para ver o filme várias vezes e fui mudando a música, os efeitos especiais, o som. O processo de pós-produção foi mais longo, o que contribuiu para o resultado final. Talvez a minha equipa de pós-produção não queira trabalhar mais comigo...

Esse perfeccionismo não terá a ver com a sua personalidade?

Não é a minha personalidade de todo. É apenas o meu filme. Se me visse num outro contexto, diria que sou um pouco tolo.

O que prefere filmar, as cenas de ação ou as cenas mais íntimas?

Não gosto muito de rodar cenas de ação. Não sou fã, evitava-as se pudesse. Só incluo essas cenas por causa das personagens. É claro que quando as filmo, tento fazê-lo de uma forma impecável. Mas isso não quer dizer que goste de filmá-las.

O seu cinema é conotado com uma certa violência, o que exige essas cenas...

Os meus filmes anteriores, e talvez os filmes que se seguirão, lidam com a violência. É por isso que as cenas de ação são necessárias, sim. Vou ter de as filmar, mesmo que não goste de o fazer. É um grande desafio, mas o meu trabalho como realizador é fazê-lo. Não as faço pelo prazer de as fazer. Vejo essas cenas, murros ou tiros, como outra forma de expressar emoções e relações entre as personagens.

Desta vez avisou os espectadores que o filme não teria tanta violência e sexo. Está cansado dos espectadores esperarem isso do seu cinema?

De maneira nenhuma. Só disse isso porque este é um filme diferente. O meu próximo projeto vai ter mais violência e sexo. E há um filme que quero fazer no ocidente, para o qual ainda não tenho financiamento, que também vai ter bastante violência e sexo.

Costuma ver os seus filmes anteriores?

Não gosto de voltar a ver os meus filmes, porque teria vontade de mudar tudo. Mas o "Thirst" é o meu preferido. Se vivesse num mundo ideal, gostaria de fazer um filme em coreano e um filme em inglês de cada vez. Mas não depende da minha vontade, depende do financiamento. Gostava de filmar em língua inglesa pela diversidade e pela escolha de temas. Não é que haja censura na Coreia. Mas cada país tem temas específicos a explorar. E também poderia trabalhar com uma maior variedade de atores.

Pode falar um pouco da série que realizou, "The little drummer girl"?

O John Le Carré é o meu ídolo desde que comecei a ler os livros dele quando era estudante. Desde essa altura que quis fazer um filme ou uma série baseada num livro dele. Na verdade foi em Cannes, quando apresentei "A Criada" que pedi à minha equipa para organizar uma reunião com os produtores para poder fazer a série. Nesse sentido, foi um sonho tornado realidade. Para mim, é um dos melhores livros dele, apesar de não ter sido muito bem recebido.

O que lhe traz a televisão que o cinema não lhe dê?

A minha prioridade é fazer filmes para o cinema. Permite-nos ver um trabalho com a maior qualidade de imagem e de som e garantir a máxima concentração e atenção do espectador na sala de cinema. No entanto, há um grande mérito em fazer séries de televisão e que o cinema não tem: podemos contar uma história longa e explorar um maior número de personagens.

Quando filma, está a pensar em si ou no espetador?

Ponho-me sempre na pele do espetador, que não sabe nada do meu filme. Não consigo imaginar uma pessoa específica, mas penso em mim como um amante de cinema. Pergunto-me: se eu fosse um normal espetador de cinema, como é que eu me veria a mim mesmo? É claro que não me posso transformar completamente naquela pessoa, mas estou a praticar para o conseguir.

Que conselhos daria a quem deseja tornar-se realizador de cinema?

Tenho de começar por dizer que invejo os jovens estudantes de cinema de hoje porque dispõem de todo este excelente equipamento digital e não precisam de tanto dinheiro para fazer um filme. Até os podem fazer com os telemóveis. E podem divulgar o trabalho deles em outras plataformas, como o YouTube. É uma era muito diferente.

Este ano é o 30.º aniversário da estreia do seu primeiro filme.

E ainda hoje penso nestas questões fundamentais: quando vou filmar uma cena, vai ser de que duração, como é que a vou filmar, que tipo de lentes vou usar. Faço uma sugestão aos jovens realizadores: têm de agonizar sobre estas questões, plano a plano, movimento a movimento...